Leituras

ELA NASCIMENTO

Sobre espaço, imagem e cenografia

“O cenário deverá ser tal qual um corpo de ator reagindo às palavras e criando a ação”

Cyro Del Nero

O espaço de representação, ou seja, o espaço destinado ao jogo cênico resultante de uma dramaturgia, roteiro ou outra fonte, deixou de pertencer exclusivamente as grandes salas e monumentais edifícios teatrais. De forma mais intensa, a partir dos anos 90, esse espaço se modifica e se multiplica, encontrando lugares outros para sua concretização. Não mais o lugar teatral definido pela caixa cênica, mas locais alternativos, dos mais variados estilos, passam a ser espaços cênicos. O espaço passa a ser visto como elemento dramatúrgico, exigindo novas leituras, e sendo promovido: se antes era apenas capacitado tecnicamente para a representação, agora se torna elemento definidor e essencial na proposta cênica.

Cyro del NeroO cenógrafo Cyro del Nero, que era pesquisador do espaço da cena

Antes de tudo, é necessário entender do que se constitui esse espaço de representação, e sua particularidade como espaço mutável, que não se fecha apenas em salas e palcos teatrais. Segundo o autor Walter Torres Lima Neto(2012), existem duas noções complementares que possuem suas particularidades: o lugar teatral e o espaço cênico. Ao lugar teatral, o autor reserva os palcos e salas das construções que tem como objetivo resguardar o acontecimento cênico, transformadas com as mudanças da arquitetura teatral ao longo das décadas, incluindo o espaço de convivência entre atores e espectadores, “um lugar eleito para trocas simbólicas” (NETO, 2012). Dentro dessas obras arquitetônicas podemos encontrar o espaço cênico tradicional, ou seja, o próprio palco teatral, que surge “do atrito entre uma concepção de texto e de cena” (NETO, 2012). Ao longo dos tempos, esse espaço foi fixado às arquiteturas fixas, como o lugar onde se deve fazer teatro. Porém, por se tratar da relação direta entre atores, dramaturgia e ação, a esse espaço não cabe a mesma perenidade do lugar teatral, pois como bem sabemos, podemos fazer teatro em qualquer lugar.

Quanto ao espaço cênico, podemos inicialmente afirmar que ele é sempre originário de um trabalho de transposição e/ou criação cênica, oriundo de um vestígio ficcional ou não. Pensando-se de forma convencional, isto é, o espaço cênico em relação a uma dramaturgia, aquele consistiria na transposição e/ou criação de um “local da ação”, sugerido por esta ficção: roteiro ou texto dramático. Costumeiramente, este espaço cênico veio sendo construído no interior desse lugar teatral monumental. O espaço cênico seria assim um dos pólos deste lugar teatral, que é percebido desde essas duas unidades distintas como acabamos de verificar: o espaço destinado ao jogo dos atores e o espaço daqueles que assistem à exibição. (NETO, 2012, p. 6-7.).

Tendo tal definição de espaço cênico como local em que se desenvolve a ação, podemos libertá-lo do edifício teatral, na medida em que a ação não se obriga a acontecer dentro desses espaços específicos, construídos e equipados para abriga-la. E é o que tem sido feito: escolha de espaços alternativos para a ação teatral faz com que o espaço cênico seja mutável e se aproprie do espaço pré-concebido para a sua realização. Se antes o cenógrafo possuía esse espaço “vazio”, a caixa preta, como uma tela em branco para compor a cenografia, munido da tridimensionalidade do espaço, agora, ele possui o espaço construído, a tela rabiscada, onde, aliado ao que já existe, ele construirá o espaço de jogo, ou seja, o espaço cênico.

“A Cenografia é o espaço eleito para que aconteça o drama ao qual queremos assistir. Portanto, falando de cenografia poderemos entender tanto o que está contido em um espaço, quanto o próprio espaço”. 1. Gianne Ratto

Pensando dessa forma, podemos questionar o lugar da cenografia dentro do espetáculo, a partir do momento que a escolha do espaço se torna elemento condicionante da proposta cênica ou da dramaturgia escolhida. Se pensarmos na cenografia como compositora do espaço de representação, responsável pela grafia do espaço, podemos encarar esse espaço alternativo como material: o próprio espaço se constitui como cenografia. Quando o grupo Teatro da Vertigem escolhe um barco no rio Tietê como espaço de representação, como vemos no espetáculo BR3 (2005/2006), ele relega ao próprio rio o papel de cenografia do espetáculo. As intervenções realizadas as margens do rio, compõe juntamente com a paisagem urbana, o conjunto cenográfico da peça. A cenografia, mais do que nunca, se traduz em imagem. Legado que já foi ensaiado na virada do século XIX com as artes de vanguarda (simbolismo, cubismo, futurismo e a própria performance art). A cenografia também conta, também narra, também comunica.

Teatro da Vertigem - BR3 - Rio Tietê - São Paulo.jpg5Teatro da Vertigem – BR3 – Rio Tietê – São Paulo

Teatro da Vertigem - BR3 - Rio Tietê - São PauloTeatro da Vertigem – BR3 – Rio Tietê – São Paulo

O estudo da cenografia hoje deve ultrapassar a tridimensionalidade do espaço da cena, incorporando a quarta dimensão, o tempo, gerado por sua utilização, seu funcionamento a partir dos deslocamentos físicos do ator no espaço; deve trabalhar a multiplicação de focos de observação do espectador, para quem a encenação é criada. (COHEN, 2007, p.6)

Na cena contemporânea que busca espaços de representação não convencionais, ou na imagem a própria dramaturgia cênica, a relação espaço–cena se torna intima e complementar. Somando a tridimensionalidade, tempo e o deslocamento do próprio ator, aplicado a observação do espectador em diferentes pontos de vista, termos a imagem em si, que se transmuta em um gráfico em que tempo e espaço se relacionam de forma direta. É interessante que o cenógrafo tenha dimensão dessa relação imagem/cena, pois ele se torna peça fundamental para a concretização e construção de tais imagens, por ser responsável pela plástica da cena. E para isso, ele próprio tem que se ver dentro do processo como engrenagem fundamental nessa criação imagética contemporânea, ao lado do encenador, diretor, atores, iluminador, figurinista, músicos e demais profissionais envolvidos no processo.

O Teatro pode ser realizado em qualquer espaço, em qualquer lugar, ou seja, qualquer lugar é teatral, o que impõe a reformulação e a atualização das funções do cenógrafo. Sendo assim, a primeira função do cenógrafo será organizar visual e espacialmente o lugar teatral para estabelecer a relação da cena-público. A concepção da visualidade deve traduzir e revelar a linguagem da encenação. (CRUZ, 2008, p.121-122).

Pensando na imagem como construtora da cena, como ponto focal do procedimento de criação, temos Bachelard:

Dizer que a imagem poética foge a causalidade é, sem dúvida, uma declaração grave. Mas as causas alegada pelo psicólogo e pelo psicanalista jamais podem explicar bem o caráter realmente inesperado da imagem nova, nem tampouco a adesão que ela suscita numa alma alheia ao processo de sua criação. O poeta não me confere o passado de sua imagem, e no entanto ela se enraíza imediatamente em mim. A comunicabilidade de uma imagem singular é um fato de grande significação ontológica. (BACHELARD, 1993, p.02)

O autor destaca a importância e o impacto causado através da imagem já construída no espectador/leitor que não participou do seu processo de construção. O impacto de uma imagem pode trazer reverberações outras, que não caminham no encadeamento lógico de fatos e relações. Sua comunicação, as possíveis mensagens ou informações que elas podem evocar, podem ser apreendidas através da experiência, de sua vivencia. Em tempos de desconstrução da cena, em que o espaço cênico reverbera para além na sala vazia e se instala em espaços que por sua pura existência já nos causam alguma leitura, é importante ao cenógrafo a consciência de seu poder criador de imagens, de “escritor do espaço”, mesmo naquele espaço que já possua linhas e riscos…

A cenografia na antiguidade para os gregos, assim denominada Skenographia, constituía-se como arte de adornar o teatro. No Renascimento passou a ser tratada como a técnica de representar em um plano bidimensional, em um telão, uma imagem em perspectiva; imagem que serviria para situar a ação teatral em um determinado lugar representado de forma realista. Já na passagem do século XIX para o XX, ela ganha a definição de escritura cênica, uma forma de explicar sua transposição de pintura bidimensional a escultura ou arquitetura, de caráter tridimensional. Diante da evolução da encenação, a Cenografia deixa de ser um elemento meramente ilustrativo, ou decorativo, para torna-se um dispositivo visual que ganha presença e participação na comunicação ao público do argumento proposto pelo evento teatral, não apenas um lugar onde se passa a ação, mas como ação proposta entre o texto, a ação e a recepção. No contexto do Teatro Contemporâneo, a cenografia apresenta-se também como a arte de adaptar os espaços teatrais ou não convencionais aos processos desencadeados para a realização de um acontecimento teatral. (COHEN, 2007, p.26)

Assim como a arte teatral se modificou ao longo dos séculos, a cenografia acompanhou esse processo de perto, como deve continuar acompanhando. Até porque, em sua própria definição, que dentre tantas, gira em torno da grafia, plástica e imagem da cena, ela se coloca como variável que segue tais modificações. Esses espaços transitórios, aparentemente impróprios, revelam possibilidades de criação particulares, únicas. Como eles se tornam peças fundamentais para a leitura e apreciação da obra, não cabe ao cenógrafo escondê-lo e sim recriá-lo, usar o já construído a favor da encenação.

Shakespeares Sonnets                                                                                                             Shakespeare-Bob Wilson

LULUMacbeth-Bob Wilson

Cenografia é imagem. É o que podemos ver na obra de Bob Wilson, por exemplo, que dentro da caixa cênica leva a questão imagem/cenografia ao extremo, com maestria. Como afirma Cyro Del Nero, “o cenário é a paisagem mental para que as palavras ecoem” (NERO, 2008, p.20). E se a cenografia é a grafia do espaço, então ela se traduz no espaço. O poder de uma imagem poética, criada pelo misto de cenografia, movimento dos atores, iluminação e figurino, munida da leitura do espectador, sendo ela lógica ou não, corresponde a alma a “coluna vertebral invisível do espetáculo”3. Em tempos em que uma imagem vale tanto quanto (às vezes até mais) uma palavra, revisitar a função do cenógrafo no processo de criação, estreitar relações entre cenógrafo/encenador/obra, são aspectos fundamentais para entender o papel da cenografia em um teatro contemporâneo, plural, fragmentado, que explode as fronteiras do edifício teatral e da roda de rua, para ocupar espaços já significados com ação cênica.

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1. RATTO, Gianne. Anti-tratado de Cenografia. SENAC, 1999, p.22

2. NERO, Cyro Del. Cenografia: Uma breve Visita. Editora Claridade, São Paulo, 2008. Cyro Del Nero citando fala do cenógrafo Yannis Kokkos.

 

 

Bibliografia

BACHELARD, Gaston. A Poética do Devaneio. Trad. Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

COHEN, Renato. Work in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva, 2006.

COHEN, Myriam Aby. Cenografia Brasileira Século XXI: Diálogos possíveis entre prática e ensino. 2007. 207f. Mestrado (Dissertação). Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007.

CRUZ, Doris Rollemberg. A cenografia além do espaço e do tempo: O Teatro de dimensões adicionais. 2008. 239f. Doutorado (Tese). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Centro de Letras e Artes, Programa de Pós Graduação em Teatro. Rio de Janeiro, 2008.

RATTO, Gianne. Anti-tratado de Cenografia. SENAC, 1999.

NETO, Walter Lima Torres. Sobre o trabalho com o espaço teatral. In: Revista Percevejo, Número 1, Vol. 04, Janeiro-Julho, Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da UNIRIO, Rio de Janeiro, 2012.

NERO, Cyro Del. Cenografia: Uma breve Visita. Editora Claridade, São Paulo, 2008.

 

Ela Nascimento

Formada em Artes Cênicas pelo IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará), mestre em Teatro pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e concluinte do curso de Arquitetura e Urbanismo pela UFC (Universidade Federal do Ceará) com pesquisa sobre a intervenção artística no meio urbano. Como cenógrafa, projetou cenários dos espetáculos Fora do Ar, da act2UP Produções; Quase Nada, grupo Nóis de Teatro; Tentativas Contra a Vida Dela, espetáculo de conclusão do curso de Licenciatura em Teatro do IFCE (turma 2010.1), com direção de Robson Levy; Como Representar Os Negros?, Coletivo Pathus, Universidade Federal do Ceará, com direção de Tiago Fortes; A Ópera do Malandro, com direção de Thiago Arrais; João Botão,com direção de Fran Teixeira, Teatro Máquina; Woyzeck Hightech, da turma de conclusão do IFCE, direção de Gabriel Matos e Mahagonny; Ascenção e Queda, com o qual foi premiada na categoria melhor cenário no prêmio Destaques do Ano (2009) e indicada pela mesma categoria em 2010. Atualmente é professora do percurso de Cenografia da Escola Porto Iracema das Artes.

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