ALUNOS ENTREVISTAM FIGURINISTAS

O Professor Fausto Viana propôs aos seus alunos de graduação do curso de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP, na disciplina História da Cenografia e Indumentária II, que eles investigassem o processo criativo e de trabalho de figurinistas com espetáculos em cartaz na cidade de São Paulo.

Em seguida veio a proposta para que pudessem publicar o resultado de seus trabalhos aqui, no vestindoacena.com. Aceitamos de pronto, afinal é uma ótima oportunidade para entendermos um pouco mais sobre diferentes modos de trabalho na criação da indumentária teatral.

O primeiro resultado é a entrevista da aluna Mon Liu com a figurinista Telumi Helen e a produtora executiva Cristiani Zonzini sobre o espetáculo O Papa e a Bruxa, dos Parlapatões.

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* Para ver mais fotos e um trecho do espetáculo em vídeo, acesse o blog do grupo Parlapatões. Esta entrevista também se baseou na entrevista concedida por Telumi Helen ao grupo, no blog citado.

Mon Liu – Qual a sua formação?

Telumi Helen – Educação Artística, mas sempre fui voraz e fazia muitos cursos paralelos: artesanato, cinema de animação (teatro de bonecos), pintura, texturas, decoração de festas etc. Fiz também Lato Sensu em “Psicologia da Arte” que possui muita importância para a minha vida profissional. Iniciei na área por uma sincronicidade: fui atrás de um workshop de cenografia na Oficina Oswald de Andrade (era com o Rossi) e as vagas estavam preenchidas. Quando buscamos o nosso caminho, as portas se abrem: encontrei um amigo que estava fazendo dramaturgia no CPT e me levou lá, para ser entrevistada para cenografia, onde conheci o Serroni e o Antunes. Experimentava a arte de todas as formas e fui aprendiz, que é diferente de aluna. Onde me senti em casa: A Cenografia e os Figurinos eram do meu universo.

Mon Liu – Como aconteceu o seu envolvimento com o teatro em geral e com o espetáculo?

Telumi Helen – Foi por meio da formação e ensino do Serroni e do Antunes, que transmitem com tanta paixão a beleza, a força do pensamento, a interpretação, a expressão humana desta Arte (Teatro) que me permiti seguir por este caminho. Já possuo um trajeto nesta área, onde trabalho para o Espaço Cenográfico (com J. C. Serroni), em parcerias com outros cenógrafos e também individualmente, como para O Circo Roda Brasil (fundado em 2006), que é composto pela união dos grupos teatrais Parlapatões e Pia Fraus.

Mon Liu – Qual foi o processo de criação?

Telumi Helen – No meu processo de criação trabalho muito com croquis, traços, texturas e cores. Tento representar ao máximo a atmosfera da peça. Por exemplo, um ar leve pode ser obtido por veladura de uma aquarela e para situações mais dramáticas ou densas, posso usar pastel oleoso, etc. Esta forma de explanação faz parte de uma apresentação onde consigo transmitir para o diretor um pouco do universo que está sendo elaborado, onde já estão contidos símbolos e signos da linguagem do projeto.

No caso de O Papa e a Bruxa, pude participar de três leituras. A partir daí, comecei a elaboração dos figurinos e a desenhar. Por um curto prazo de tempo, a linguagem que foi proposta no segundo ou terceiro desenho já caminhou com entendimento em comum com a direção do Hugo Possolo e foi onde prossegui desenvolvendo o restante. (obs: o texto e a leitura já com estudos de interpretação me envolveram demais neste processo), por isso a fluidez.

Mon Liu – Como foi a participação da direção e atores na concepção do espetáculo?

Telumi Helen – Como grupo heterogêneo, diverso e humorado, a direção e os atores participam dando sugestões para a concepção e execução do espetáculo.

Mon Liu – Quais são as referências para o seu trabalho?

Telumi Helen – Quando ando pelas ruas percebo nas pessoas se um indivíduo é mais romântico, mais agressivo etc. E vejo outros sinais que não estão apenas nas vestes, mas no comportamento, na postura, na forma da configuração física e em tudo mais onde busco essa inspiração, observando o cotidiano (vivência) e pesquisando na psicologia, na história do homem, na história da arte, na filosofia, na antropologia etc.

Como é um tema que fala do Vaticano: sua austeridade, nobreza, rigor, firmeza e ao mesmo tempo de vícios, o modo de pensar foi que a temática não poderia vincular a nenhum tipo de preconceito de religião, de crenças e até mesmo de estilo.

Então, o próprio figurino do Vaticano é atemporal, o que nos permitiu fazer brincadeiras, como por exemplo, usar tênis junto aos hábitos. Buscando nas pesquisas, deparei com um site que trazia calendário dos padres sensuais do Vaticano, acredite se quiser. Hoje podemos encontrar batina pink para padres. Nesse levantamento, fiz também um levantamento da época medieval e a evolução até os dias de hoje.

O figurino desse espetáculo tenta transmitir isso, o hábito preto com colarinho branco, da época do renascimento, mas com um zíper, um pouco do nosso período. Na verdade, uma proposta que era pra facilitar na mudança de troca de figurinos virou um conceito: utilizando o zíper, o tênis, criando referências contemporâneas. Onde formou uma linguagem mais Pop Art.

Mon Liu – Como foi a execução do projeto?

Telumi Helen – O “storyboard” foi um orientador para estudos tipológicos, configurações, personalizações da indumentária de cada personagem, da expressão, movimentação cênica de cada ator com suas peculariedades.

A primeira prova: vem sempre acompanhado de ajustes, afinações para os ensaios iniciais com o figurino.

Foram de 38 a 50 figurinos. Mesmo com a gente brincando bastante e utilizando recursos contemporâneos, o realismo é imprescindível para esse espetáculo, pois o rigor do Vaticano com as vestimentas e objetos tem que ser levado a sério para este projeto. Usei uma réplica do tênis Nike dourado para a figura do Papa, todos possuem uma cruz diferente, detalhes únicos nos hábitos, tênis personalizados. A única coisa em comum é o zíper na frente, como símbolo do desnudamento para o humano.

Na parte técnica dos figurinos houve muitos detalhamentos para facilitação da agilidade e rapidez nas trocas das roupas, até mesmo nas brincadeiras mais ousadas do figurino, tem que ter uma leveza e praticidade ao mesmo tempo. Por exemplo, adereços de cabeça que os atores jogam pra cima, a peruca voando em cena e na hora que volta pra cabeça tem que estar ajeitada.

Mon Liu – Quem executou e o que foi alterado da concepção inicial?

Telumi Helen – Os adereços foram feitos, na sua maioria, pelos alunos /estagiários do curso de Cenografia do Espaço Cenográfico, com a coordenação da Marina Figueiredo. Existe um período de ajustes dos mecanismos dos adereços de acordo com o tempo cênico. Isso é um desafio muito grande para nós. Por Ex: a armadura e o capacete dão a impressão de serem de metal, mas são de papelão forrado (muito trabalhado artesanalmente) e este é um dos poucos exemplos da magia do figurino de teatro…

O prazo era muito curto e dividi com costureiras especialistas… A Judite, com sua especialização, corta direto no tecido, não precisa de moldes. Podemos dizer que a execução foi de 10 a 15 dias de acompanhamento e mais 10 dias de afinação, resultando em 25 dias no total. Os ajustes são necessários e importantes, para o bom resultado dos figurinos.

Mon Liu – Outros dados que você considera importantes?

Telumi Helen – Conversar, trocar percepções, experiências e vivências com o diretor e os atores, estudar comportamentos mental e físico, pesquisar psicologia, filosofia, história, sociologia, as necessidades que o projeto solicita, experimentar vários tipos de materiais adequados ao ser humano, múltiplas formas do vestir etc.

Parlapatões – E desse processo todo, quando seu trabalho termina de fato?

Telumi Helen – Para o projeto só na estréia. E ainda assim pode surgir uma coisinha ou outra. O refinamento e aprimoramento acontecem bem perto da estreia. Questiono e luto para o aprimoramento de pelo menos dez dias, foi o que conquistamos pelo menos no momento em que estamos vivenciando. Vou testando durante os ensaios, onde sinto as transformações necessárias para os ajustes, percebendo como todos esses figurinos e adereços estão  comportando,funcionando, movimentando no corpo do ator e cenicamente, a praticidade etc.

Parlapatões – A organização de todos os figurinos, com nome e numa ordem de sequência das cenas, também faz parte do seu trabalho?

Telumi Helen – Como o processo foi muito rápido pra todos, para facilitação da assimilação dos figurinos apresentei os desenhos com as cenas onde cada ator já se identificava, por isso a primeira organização foi apresentada da mesma forma nas araras e posteriormente cada um criou sua própria organização com carinho e arrumação. A organização de figurinos e adereços é também necessária para uma boa fluidez da apresentação. Foi um projeto criado com muita satisfação.

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ENTREVISTA COM CRISTIANI ZONZINI (produção executiva)

Mon Liu – Qual a sua formação?

Cristiani Zonzini – Fiz dois anos de Economia. Depois larguei tudo e me formei em Artes Cênicas.

Mon Liu – Como aconteceu o seu envolvimento com o espetáculo?

Cristiani Zonzini – Trabalho com os Parlapatões há seis anos. Este espetáculo foi a realização de mais um projeto com o grupo. 

Mon Liu – Qual foi o processo de criação?

Cristiani Zonzini – O processo de criação do grupo é sempre feito em conjunto, mas com a coordenação do Hugo Possolo. Pensamos no cenário, figurinos, adereços, todos juntos, sempre em reunião e todos dão opiniões, o elenco inclusive pode sugerir ideias.

Mon Liu – Como foi a participação da direção e dos atores na concepção do espetáculo?

Cristiani Zonzini – O trabalho de grupo é diferenciado de uma produção comercial. Todos se envolvem muito por que este não é o primeiro espetáculo em que trabalham juntos. Temos um repertório de espetáculos formado praticamente pelo mesmo elenco. Então, a participação do elenco e da direção na concepção do espetáculo faz parte do trabalho de concepção geral.

Mon Liu – Quais as referências?

Cristiani Zonzini – Nossas referências são sempre a partir da comédia e do circo. E neste trabalho especificamente, buscamos entender a forma de trabalho do autor, Dario Fo, pra entender melhor também o texto.

Mon Liu – Como foi a execução do projeto?

Cristiani Zonzini – Primeiro temos as ideias. Depois desenhos e a maquete do cenário, que é importantíssima pra que a equipe de criação desenvolva o projeto e para que a equipe de produção possa entender melhor o resultado desejado.

Mon Liu – Quem executou e o que foi alterado da concepção inicial?

Cristiani Zonzini – Pouca coisa foi alterada da concepção inicial, porque o projeto foi bem planejado e seguiu a risca o orçamento. Quem executou os figurinos foi a Telumi e ela teve bastante autonomia na realização das ideias. Os cenários foram feitos por nossos cenotécnicos que trabalharam dentro do teatro, o que permitiu uma verificação contínua do processo de trabalho deles. E vários adereços e demais peças do cenário foram compradas prontas. Isso envolveu pesquisa de materiais em vários locais, inclusive em feiras de antiguidades para comprar peças que compõem o Vaticano, por exemplo.

 

Observação de Rosane Muniz – * Para saber mais sobre o trabalho de Telumi Helen e sua trajetória de trabalho, leia o capítulo O figurino e os figurinistas – J. C. Serroni e Telumi Helen – p. 203-231, do meu livro Vestindo os nus – o figurino em cena (Ed. Senac, 2004).

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