O que somos

Desde 2003, quando cursava uma pós-graduação lato-sensu em Jornalismo Cultural na PUC-SP, tive a idéia de criar um blog para o exercício do jornalismo coletivo com a finalidade de que se tornasse um espaço livre para a reflexão do fazer teatral. Já pesquisava o elemento “figurino” desde 2001 e tinha escrito o livro Vestindo os nus - o figurino em cena, que viria a lançar em 2004, pela Ed. Senac Rio.

Mas a correria do dia-a-dia, o envolvimento com outros projetos e a entrada para o Mestrado em Artes Cênicas (na USP, continuando minha pesquisa sobre Indumentária e Cenografia) me ocuparam e fizeram com que a idéia ficasse adormecida. Ou melhor, em amadurecimento. Quando decidi que iria presenciar a Quadrienal de Praga, em 2007, achei que era a hora de tirar da gaveta o projeto e colocar em prática. Afinal, o blog poderia ser um ótimo espaço para a divulgação do evento e para a reflexão dos trabalhos apresentados. Não só por mim, mas também com a participação da equipe do Brasil (profissionais da área, professores, pesquisadores, grupo CenografiaBrasil, ABrIC…) que estaria presente.

Durante a Quadrienal, o blog não funcionou da maneira programada, pois tive que lidar com a dificuldade de conexão e a “maluquice” dos teclados tchecos, com seus acentos muito diferentes dos nossos. O arrependimento de não ter levado o notebook bateu, mas eu continuaria a viagem por Viena e Paris por mais dez dias e havia feito esta opção, por segurança e pelo peso a mais… Mas já vi que não dá pra manter um blog diariamente sem um computador pessoal a tiracolo! Primeiro aprendizado! Além do mais, a quantidade de eventos era enorme e ocupava o dia inteiro! Assim, preferi captar o maior número de informações ao participar de palestras, debates, discussões, assistir espetáculos, performances as mais variadas e disponibilizar os dados em artigos mais reflexivos posteriormente, já no Brasil.

Meu contato inicial com um blog de funcionamento coletivo foi por meio de meus colegas de PUC, André de Abreu e Daniela Bertocchi, na disciplina de Jornalismo Multimídia, dos Profs. Luis Carlos Petry e Sérgio Bairon. Iniciei minha participação na lista de discussão do blog intermezzo e presencio, até hoje, uma forma coletiva das mais generosas e enriquecedoras de fazer jornalismo.

Fundamental também foi ter conhecido a Débora Batello, que me ajudou a migrar do endereço .wordpress para uma home mais elaborada, além de me auxiliar sempre com o uso das ferramentas para aproveitar os recursos que um blog pode ter.

O nome vestindoacena veio inspirado do nome do meu livro, não vou negar. Mas também de Gianni Ratto, o qual pesquiso no mestrado, que dizia:

A cenografia é uma arte descartável… O que sobra depois que um espetáculo termina são aqueles espelhos quebrados que povoam magicamente as salas de espetáculos vazias, algumas fotografias, às vezes uma gravação e, infelizmente, as coletâneas de críticas que, estas sim, permanecem para confundir os incautos. (A Mochila do Mascate, p.25-26)

Os elementos cênicos aqui tratados “vestem” a cena ao longo de todo um processo de pensamento, estudo, desenho, criação, execução, para servirem à encenação e depois se descomporem no término da temporada. Registrando aqui o processo, cacos podem resistir e, juntos, recomporem a importância de trabalhos, formando a história do exercício da profissão do cenógrafo, figurinista, iluminador, sonoplasta… Citando mais uma vez Ratto:

Parece-me indispensável distinguir a crônica da história. O TEATRO é a História, o ESPETÁCULO a crônica; estas personagens chamadas diretor, ator, cenógrafo, figurinista, iluminador, músico etc são os componentes de uma crônica que muito tempo depois de suas existências passará a ser História: a História destrói a crônica e quando esta, de uma forma ou de outra, consegue sobreviver se transforma em anedota: não preciso exemplificar.
A cenografia e o figurino têm uma vantagem sobre os outros aspectos do espetáculo que, uma vez acabado, é irrepetível: o projeto, o desenho, o croqui sobrevivem, mas, por estarem separados do espetáculo propriamente dito, assumem as características das artes plásticas; admiramos então, se for o caso, a elegância de uma gravura, a criatividade de uma roupa, a beleza pictórica de uma prancha: quer dizer, criamos uma memória fictícia do que talvez possa ter sido um espetáculo e emprestamos ao TEATRO uma dimensão estética, suporte de seus valores poéticos e históricos; a crônica do espetáculo morreu e os aspectos complementares do texto inicial assumiram valor anedótico.
(A Mochila do Mascate, p.74-75)

Vestir a cena com palavras e reflexões é a intenção deste blog. O uso do gerúndio (”vestindo”) é para estimular que este ato, já constante no dia-a-dia do fazer teatral, seja permanente também por aqui. Não só com os artigos dos colaboradores, mas também com comentários e análises dos internautas afins.

A estréia se deu. Agora espero que a temporada seja ininterrupta!!

Rosane Muniz (julho / 2007)