Lola Tolentino

O figurino e o teatro foram uma ressurreição na minha vida.

Quem praticou esporte, aprende muito. Vê que nem sempre se pode ganhar, nem sempre perder. Eu jogava vôlei e uma vez um juiz me disse: “Lola, você sabe que um juiz é bom quando não aparece, pois o espetáculo é dos jogadores. Se o juiz quiser aparecer mais do que os jogadores, não é bom.” Eu levo isso para o figurino. Ele tem que estar a serviço do diretor, do espetáculo e dos atores.

Esta é a minha filosofia!

Lola Tolentino (em entrevista, Rio de Janeiro, 2001)

Foto tirada em 20 mar. 2008, quando Lola foi uma das artistas escolhidas para receber o prêmio do Centro Brasileiro Teatro para Infância e Juventude, no Dia Mundial do Teatro, em homenagem aos profissionais que muito contribuíram na história do teatro para crianças e jovens nas últimas seis décadas. Fonte:

Foto tirada em 20 mar. 2008, quando Lola foi uma das artistas escolhidas para receber o prêmio do Centro Brasileiro Teatro para Infância e Juventude, no Dia Mundial do Teatro, em homenagem aos profissionais que muito contribuíram na história do teatro para crianças e jovens nas últimas seis décadas. Fonte: <http://cbtij.org.br>

 

E hoje é o dia dela!

Há 12 dias de completar mais um ano de vida (em 10 de dezembro), ela decidiu partir. Mas não tem jeito. Sua alegria continuará sempre nos lembrando de sua presença e, por isso, hoje, vibramos na data do seu aniversário! O que era assistir um espetáculo com Lola? Uma maravilha! Muito troca-troca de ideias, comentários inspiradores… e outros nem tanto, claro! Afinal, Lola era uma mulher que não escondia suas opiniões (oras… se só houvesse teatro bem feito…).

Quando a afinidade com alguém é tamanha, a sensação é a de que a pessoa está sempre ali, ao seu lado… a gente acaba por se perceber, às vezes, falando sozinha e imaginando as respostas… Aí pensamos: “preciso ligar pra ela! Contar o que vi. Conversar sobre o acervo do museu de tal país que ela me disse pra visitar… sobre a dificuldade com a costureira ao tentar executar um detalhe criado para um figurino…” Mas a vida corre, a gente cria daqui, cria de lá, e os “cafés e vinhos” acabam não sendo tão comuns como quando trabalhamos juntas.

Assim é minha relação com Lola Tolentino. Isso mesmo, no tempo presente, pois continuará a ser… Apesar de tanto tempo sem nos encontrarmos, parecia que ela estava sempre aqui ao meu lado, ouvindo o que eu tinha pra contar e me revelando, sempre animada, suas histórias.

Eleonora Tolentino de Araújo é minha inspiração, pois foi com ela que o despertar para o figurino teatral aconteceu, quando em 2001 ela vestiu o elenco da peça Os Atores de Boa Fé, do autor francês Marivaux. Eu fazia o curso livre de interpretação do grupo TAPA lá no Teatro da Aliança Francesa, com Guilherme Sant’Anna e Brian Penido Ross, quando um dos atores do grupo, o Tony Giusti, me convidou para participar de um projeto experimental. Aí começou uma parceria que duraria mais de 10 anos… Estávamos pesquisando e ensaiando há dez meses, e o Eduardo Tolentino sugeriu que fizéssemos um ensaio aberto. Lá no porão estava o acervo de figurinos do grupo e Lola, que acompanhava cada passo de tudo o que acontecia no teatro, rapidamente surgiu em cena e disse que ia nos vestir. Ao longo desses meses, não foram poucas as vezes em que a víamos sentada na plateia assistindo aos nossos ensaios.

Cris Caccioli, Maghali Miranda, Tony Giusti, eu, Marcela Leal, Carla, Edson Coelho (em pé), Igor Zuvela, Rhena de Faria, Elcio Rodrigues e Rodrigo Lombardi. Teatro Aliança Francesa, 2001.

 

Foi uma surpresa quando ela chegou com sua ideia de colocar todos com roupas de baixo! Passada no século XVIII, esta comédia apresenta um metateatro, com atores ensaiando para uma apresentação que seria feita na noite de um noivado. Um jogo de interpretação que envolve muitas mentiras e astúcia para entender quando alguém está representando de fato ou não. A linguagem trazida por Lola reforçou significados e seu figurino não só compôs a cena, mas teve autoria, criou e despertou características que ajudaram nas composições dos personagens, transformou a cena. À época, em paralelo, estava finalizando minha faculdade de Jornalismo (que tinha abandonado ao mudar pra SP aos 19 anos). Convidada a colaborar com um site de moda, sugeri escrever sobre figurinos e deu certo! Pra minha segunda matéria, escolhi falar sobre o espetáculo As Viúvas, que estava em cartaz com o TAPA. Foi aí meu primeiro bate-papo sobre figurino com a Lola.

 

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Matéria para o site Modabrasil (clique em cada imagem e leia no site)

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Comecei a pesquisar e, ao perceber a falta de bibliografia e a carência geral de conhecimento sobre os profissionais e seus processos de trabalho, decidi que este seria o tema do meu TCC, que viria a ser revisado e publicado alguns anos depois. Foi aí que realizei uma longa e prazerosa entrevista com a Lola. Em seu apartamento no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 2001, rodeadas pelas plantas que ela tanto amava, ouvi histórias, folheamos livros, vimos fotos, croquis… foram horas de bom papo.

 

 

* Leia, aqui no Vestindo a Cena, a entrevista publicada originalmente no livro Vestindo os Nus – o figurino em cena (MUNIZ, Rosane. Ed. Senac Rio, 2004), revisada para este post com o resgate de algumas falas do texto original, acompanhada por fotos e croquis.

 

Buscando algumas citações sobre Lola, trago aqui duas breves histórias:

 

Ao fazer uma declaração para a jornalista Beth Néspoli, para o jornal O Estado de S. Paulo, sobre o prêmio recebido em Cannes pela atriz Sandra Corveloni, a atriz Bárbara Paz citou Lola: “Lembro de uma história linda que [a Sandra] me contou quando contracenei com ela em Contos de Sedução, no Tapa. Contou que chorou ao vestir um figurino da Lola Tolentino pela primeira vez. Ela vem de uma família muito simples, nunca tivera um vestido tão lindo.” E a própria Lola declara em seguida: “Eu chorei junto com ela quando ela vestiu o figurino de Contos de Sedução. Era dourado, um dos vestidos da peça. Ela disse que, quando criança, via aquelas roupas nos filmes de Hollywood e imaginava quando poderia ter um vestido igual. Sentiu-se num deles naquele dia, diante do espelho.” Sandra se transformou em uma grande atriz e diretora e, quando chegou a Cannes, já tirava de letra, mesmo com sua eterna simplicidade e doçura, vestir seu traje de gala para receber seu prêmio. E Lola faz parte dessa história…

 

No livro Bendito Maldito: uma biografia de Plínio Marcos, escrito por Oswaldo Mendes, Eduardo Tolentino conta sobre quando Lola vestiu o Plínio Marcos para o casamento da sua filha Aninha. Só ela pra conseguir dobrá-lo a esta ocasião da vida. Mesmo que não tenha surpreendido muito ao Tolentino, a mulher do Plínio estava bem preocupada…

“Eduardo, que ainda tinha a imagem de Plínio em Beto Rockfeller, ‘um rapazinho bonito’, e no debate do Teatro Casa Grande, não demorou a perceber o personagem que se escondia no macacão surrado e no chinelão. Para ele, havia um personagem real e outro construído. ‘Plínio era mais inteligente que culto, mas havia certo marketing em se dizer analfabeto e vestir-se daquele jeito’, concluiu. Por isso Eduardo não se surpreendeu ao vê-lo de fraque, gravata de seda e sapato de verniz no casamento da filha Aninha, cujo figurino ficou aos cuidados de Lola Tolentino, figurinista do Tapa. ‘Walderez [de Barros] estava preocupadíssima com a possibilidade de ele dar vexame. Foi o máximo ver o Plínio orgulhosíssimo, entrando na igreja decorada com toda a pompa, digna do casamento da filha de um grande industrial, com todas as flores e avemarias possíveis. Aquela cena revelava muito do Plínio, cuja agressividade, creio, era medo de não ser aceito. Certamente, numa festa de entrega de prêmio ele não usaria aquele figurino, mas frente a uma circunstância afetiva, ele não se recusou.”

 

Assim ela sempre foi: mulher forte! A última vez que nos vimos foi na primeira estreia de A Noite das Tríbades, em 26 de setembro de 2012 (Nossa! E parece que foi ontem!), durante a mostra Strindberg, no SESC Bom Retiro. E imagina quem era o elenco… Clara Carvalho, Norival Rizzo, Nicole Cordery e Daniel Volpi, com direção de Malú Bazan. Grupo que eu já conhecia há muito tempo e já tinha visto em várias montagens em que eram vestidos pela Lola. Não tinha como fazer esse trabalho sem pensar nela o tempo todo. O que, confesso, foi bom por um lado, mas, por outro, me trouxe muitas autocobranças que atrapalharam um pouco o percurso… vivendo e aprendendo a jogar… após a peça, nos falamos brevemente e não pude ir jantar com toda a turma. Decidi que ligaria pra ela depois pra sairmos e conversar. Mas lá se foram três anos e nem vi… perdi a chance de aprender mais… c’est la vie.

 

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Em homenagem à Lola, registro aqui alguns comentários postados nas redes sociais:

“[…] Saiba que você estará presente, como sempre esteve, em toda manifestação de amor ao Teatro que nos ajudou a construir. E que agora lhe retribuimos, com o mesmo Amor! Brilhe para nós, Lola Tolentino! Um brinde a você!” Guilherme Sant’Anna

“Lola tão querida, tantas histórias, tantas peças juntas, tantos sonhos e figurinos… uma mulher que tinha o seu panache. A gente nunca vai esquecer da risada dela.” Clara Carvalho

“[…] Vamos ficar com o que a Lola tinha de melhor. A sua alegria e amor pela vida. Foi isso que ela me deixou. O seu grande amor por esta vida… e la nave va…” Denise Weinberg

“Minha querida Lola. Não quero dizer nada, só quero lembrar da sua risada escrachada, das nossas noitadas aqui em SP e no Rio, da sua imensa alegria que nos contagiava. Ouvir a sua risada do palco foi um privilégio e uma lembrança que quero levar pro resto da vida. Obrigado por tudo. Obrigado por me fazer rir e por rir de mim. Só vou guardar como recordação o seu maior tesouro: não levar a vida a sério.” Riba Carlovich

“Lola nos embelezou a todos, em todos os sentidos.” Maria Emilia Rey Pimenta

“Mestra em todos os sentidos.” Tony Giusti

“[…] Deixo aqui meu beijo fraterno aos amigos Guilherme Santana, Clara Carvalho, Denise Weinberg, Brian Penido Ross e todos do TAPA que, ao lado dela, escreveram páginas tão belas e importantes do nosso Teatro.” Marco Antonio Pamio

“Uma figura inesquecível Fez tanto pelo TAPA, pelo teatro. Só resta agradecer pela dedicação, talento e bom humor. Nas poucas vezes em que conversamos, saí mais feliz e mais culto.” César Figueiredo

“Tão Talentosa! Uma referência.” Imara Reis

“Uma guerreira dos nossos palcos.” Gerson Esteves

“Tive muitos momentos divertidos com ela. Não esqueço de suas frases! ‘Sunset Boulevard com a Glenn Close era dourado demais! Não gostei!’ Era fina e competente.” Paulo Duek

“Vou me lembrar com carinho de alguns conselhos e palavras da Lola…” Walmir Pavam

“Será lembrada sempre com carinho!” Cassio Scapim

“Tua delicadeza, talento, amor estarão para sempre em nós.” Tuna Dwek

“Grandiosa Lola!” Luciano Chirolli

“O brilho dela seguirá em todos nós que um dia tivemos a sorte de cruzar o seu iluminado caminho. Vá em paz, Senhora do Teatro.” Miguel Briamonte

“Sua generosidade e glamour jamais serão esquecidos nos palcos do teatro e da vida.” Igor Constantinov

“Aplausos, muitos aplausos, pra Lola, que deixava nossos palcos mais bonitos.” Mario Viana

“Saudosa lembrança de um olhar forte, sereno e feminino do Tapa!” Rodrigo Loboda Biondi

“Uma grande mulher de Teatro. Artista de obra delicada.” Wagner Menegare

 

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É isso! Obrigada Lola! Pelo tanto que nos ensinou ao ser esta “grande mulher de Teatro”!

 

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Saiba mais em:

Enciclopédia Itaú Cultural

Wikipedia

 

Lola Tolentino (10 dez. 1932 – 28 nov. 2015)

 

 

 

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