Leituras

Rosane Muniz

Kalma Murtinho

A gente é figurinista dentro. É de dentro para fora. Não há isso de ser para os outros. Nada disso. […] cada figurino que faço é como se fosse a caixa de Pandora, tiro a tampa e sai aquilo tudo dali. Então é como se eu, de repente, olhasse e visse um mundo completamente ideal, fantástico e no qual vou entrar. E adoro isso. Aí, começo a amar os atores, gostar demais de tudo e procuro, realmente, me entrosar com as pessoas e gostar do trabalho. Mas essa metáfora da caixa é uma imagem constante que eu tenho. É um mundo mágico que vem dali.

Kalma Murtinho (entrevista em 2001)

 

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Kalma Murtinho

 

Criar, imaginar, mergulhar em novos universos era o sentido da vida para a grande figurinista Kalma Murtinho, que nos deixou no último domingo, 20 de outubro de 2013. Uma musa do Teatro Tablado, que preferiu deixar os palcos e se dedicar à criação da visualidade da cena, ajudando a compor cada nuance de um espetáculo, filme, ópera, série televisiva…

Eu não sabia à época, mas era seu o figurino de uma das primeiras peças adultas que assisti – e que foi fundamental na minha decisão de que o mundo do teatro era a minha vida, independente do que eu fosse fazer, desde que ajudasse a construir aquele mundo mágico: Piaf, com Bibi Ferreira (que, aliás, revi emocionadamente mês passado, na remontagem de Bibi).

 

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Um pedacinho da sala de sua acolhedora casa, com alguns livros e prêmios

 

No início de minhas investigações com profissionais do universo do figurino, ao entrevistar Gianni Ratto, em 2000, ele me disse que eu não podia pensar em falar de figurino no Brasil sem conversar com Kalma Murtinho. O primeiro figurino profissional dela foi a convite de Gianni: Nossa Vida com Papai (1956). Busquei seu contato e, quando telefonei, logo me transferiram para ela e agendamos rapidamente um encontro.

 

Parecia um sonho entrar naquela casa, cheia de baús, referências, com aquela mulher maravilhosa que abriu seu coração para mim. Não só relembrando sua história, como remexendo em seus guardados, abrindo a vida e suas emoções… Era 2001… Ano passado, em 2012, ao entrevistar a figurinista Beth Filipecki1, lembrei desse momento ao questioná-la sobre a oportunidade que teve, aos 19 anos, de começar a carreira já como assistente de Kalma Murtinho:

 

“Então, Maria Augusta, muito sabiamente, atendendo a um pedido da Kalma Murtinho, que precisava de um assistente para desenhar e segui-la, mandou ‘a Beth’. E lá fui eu para a casa de Kalma Murtinho! Quando entrei na casa dela, onde morava o pai dela, aquele mineirão, primeiro ministro do governo… a mãe dela, outra mineira, com os pés na bacia fazendo as unhas… aquela família mineira… eu não acreditava naquilo, só podia ser um presente. Me senti em casa. Só que uma casa sofisticada, uma casa urbana. […] A Kalma fazia tudo pra todos, recebia Millôr Fernandes e outras pessoas e eu fui entrando nesse circuito sem saber.”

 

No meu livro, Vestindo os nus: o figurino em cena (Ed. Senac, 2004), a experiência do encontro com Kalma Murtinho resultou na primeira entrevista do livro, na qual ela é apresentada como a decana (Leia o abre da entrevista e seu currículo aqui). Não só no sentido de que era a mais antiga figurinista em ação, mas também a reconhecendo como a representante de uma classe, um exemplo de criatividade, competência, dedicação, capacidade!

 

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 Kalma Murtinho em cena, como atriz, no Teatro Tablado

Por incrível que pareça, o cenário de Piaf (que assisti no ido dos anos 1980) era de Gianni Ratto, que se tornou meu tema de pesquisa no mestrado, muitos anos mais tarde. E como as mulheres tiveram um importante lugar no trabalho e na inspiração de criação de figurino de Gianni, algumas páginas são dedicadas a algumas destas musas. Leia e admire esta bela mulher nesta página em homenagem à Kalma.

 

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 A Trajetória de Gianni Ratto na Indumentária (Muniz, Rosane. Dissertação de Mestrado, ECA-USP, 2008, p. 75)

Nos vimos ano passado, quando a convidamos para participar da mesa redonda (Re) Criação e (Re) Construção Histórica: Carnaval, Teatro, Televisão, que aconteceria durante o I SIEP Figurino, no Rio de Janeiro. Ela confirmou presença, mesmo em fase em que já não estava mais saindo muito de casa. Mas mudou de ideia à véspera, pois não estava muito disposta.

Fui insistente, fiquei com receio de a estar importunando demais, mas não podíamos ficar sem ouvi-la! Rosa Magalhães e Luciana Buarque estavam também participando da mesa e, além delas, um público de mais de 400 pessoas inscritas, esperavam também por Kalma. A dama, como sempre, me recebeu muito generosamente em sua casa e concedeu uma entrevista, desde que gravada somente em áudio, na qual demonstrou uma vivacidade, uma lembrança tão real de tudo, tão ativa, que dava vontade de a ver mais vezes criando para a cena.E ainda estava! Contou sobre o figurino que estava criando…

Ouça áudio de entrevista com Kalma Murtinho, em 07/09/2012, em sua casa, realizada por Rosane Muniz, para o I SIEP Figurino (editada com imagens de croquis e fotos)

 

Sua história merece um respeitoso registro! A Funarte, com coordenação do gerente de edições Oswaldo Carvalho, publicou, em setembro de 2014, um imperdível livro com o seus croquis e levantamento de trabalho ao longo da carreira. A filha e figurinista Rita Murtinho, com a dedicada assistência de Luiza Moura, trabalhou na organização do acervo. Ao seu lado, na organização e pesquisa, além da coordenação editorial, esteve o ator, roteirista e diretor Carlos Gregório. A introdução é escrita pela atriz Fernanda Montenegro – com quem Kalma trabalhou muitas vezes desde seu “primeiro” figurino profissional para Nossa Vida com Papai, com direção de Gianni Ratto, em 1956 -, pela crítica teatral Barbara Heliodora e pela cofundadora do Teatro Tablado Paula Santomauro.

 

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Livro Kalma Murtinho, figurinos, Ed. FUNARTE, 2014

 

Enfim, Kalma, obrigada por tudo! Por seu exemplo! Por seu talento! Por sua dedicação ao teatro! Pela singeleza, generosidade e simplicidade! Por, simplesmente ser esta “luzinha” que a tantos ilumina…!

 

 A gente vai criando e aprendendo com a observação, que também é muito bonita. São pequenas luzinhas. Você vê algo, a luz se acende e você imagina uma outra coisa que pode criar a partir daquilo.

Kalma Murtinho (entrevista em 2001)

 

Kalma Murtinho (15 ago. 1920 – 30 out. 2013)

 

Leia mais sobre Kalma Murtinho:

Acervo Cenário e Figurino: depoimento Kalma Murtinho (videodocumento no Brasil Memória das Artes – Funarte)

Enciclopédia Itaú Cultural: Kalma Murtinho

IMDB

A Trajetória do Teatro Brasileiro por Kalma Murtinho (Blog Acervo de Figurino)

Morre no Rio a figurinista Kalma Murtinho (Jornal O Globo, 20 out. 2013)

 

 

1. Entrevista publicada na revista dObras, nº 12 e realizada na PUC-SP, durante o SIEP Consumo, em 24 de abril de 2012, como atividade externa da Disciplina “Dos Paramentos aos Parangolés: Traje de Cena, aquele que tudo pode”, ministrada na Pós-Graduação em Artes Cênicas, da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, pelo Prof. Dr. Fausto Viana e pela Profª. Drª. Kathia Castilho.  Transcrição: Natália Barroti; Edição: Rosane Muniz.

1 Comentário(s)

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  • Linda sua pesquisa sobre os figurinos no Brasil… é importante e temos poucos registros…

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