Leituras

Rosane Muniz

Experimentações Cenográficas

Um convite aos alunos, pesquisadores e professores da área cenográfica!

 

Uma carência muito grande na área cenográfica Brasileira é conseguir ter conhecimento das pesquisas realizadas por alunos dos mais diversos cursos, universitários, técnicos ou livres. Apesar de ainda nos considerarmos muito carentes no que diz respeito à formação profissional, há trabalhos muito bons realizados para disciplinas específicas e/ou conclusão de curso.

Claro que existem bons locais para encontrar pesquisadores e ter acesso aos trabalhos de mestrado ou doutorado em sites institucionais. Bom exemplo é a Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP que já disponibiliza em versão PDF trabalhos nas áreas das Artes Cênicas, Arquitetura e Cinema, entre outras. Também há o Google Acadêmico como boa fonte de pesquisa. Mas, na maioria das vezes, estes trabalhos acabam permanecendo só entre pares da mesma instituição e entre amigos.

Gostaríamos de fazer um convite aos alunos e professores: que escrevam sobre bons trabalhos realizados e aproveitem o vestindoacena.com para compartilhá-los!

Para inaugurar este espaço, trazemos aqui o trabalho de conclusão de curso da assistente criativa do vestindoacena, Thais Teresa Lacerda Franco, que escreveu e produziu “A Poética Visual da Literatura de Cordel: uma proposta videográfica” na finalização de sua Pós Graduação em Cenografia e Figurino do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, realizado com orientação da Profa. Ma. Carolina Bassi de Moura e da qual, orgulhosamente, participei da banca. O que fez surgir daí o convite para trabalharmos nesta parceria de cá.

 

A Poética Visual da Literatura de Cordel

 

A partir das expressões artísticas da literatura de cordel, da xilogravura e da videoarte, a proposta do trabalho foi produzir uma videoperformance. Thais teve como base duas manifestações artísticas que se realizam no plano bidimensional e que transportou para o plano tridimensional, conservando, porém, a rusticidade e simplicidade da narrativa cordelística e da xilogravura. Sua intenção foi também a de tentar manter a sensação visual bidimensional, remetendo à materialidade dos cordéis. O resultado foi uma releitura contemporânea de expressões clássicas, fundindo as suas técnicas, sem perdessem suas características fundamentais.

Em sua monografia, a aluna traçou um histórico sobre a literatura de cordel:

 

“Ela era propagadora de notícias, curiosidades e fatos corriqueiros de uma sociedade e cultura. Essa expressão popular surgiu principalmente no nordeste do país, antes de chegar a outros estados, por ser esta uma região de grande expressão econômica e política naquela época (meados do séc. XIX). Com isso, o poeta nordestino incorporou sua poesia aos fatos ocorridos em seu ambiente social, como o cangaço, as expressões religiosas, as suas crenças, as suas lendas e até as histórias hilárias que brincavam com as tragédias do cotidiano.”

 

Após analisar exemplos da influência da Literatura de Cordel em outras linguagens, como o cinema de Glauber Rocha, os textos de João Cabral de Melo Neto, poesias de Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, além de Ariano Suassuna, novelas televisivas como Cordel Encantado e também o Carnaval e a moda de Ronaldo Fraga, entre outros, a artista e pesquisadora levantou a história da xilogravura e suas técnicas, além de estabelecer a relação entre as duas linguagens.

 

“Milhares de cordéis já foram e têm sido ilustrados com a técnica da xilogravura desde os anos 1920. Mas o casamento com essa arte milenar vem de um pouco antes. Data de 1907 a primeira xilogravura em folheto de cordel, na página interna do folheto “A Vida de Antônio Silvino” do brasileiro Francisco das Chagas Batista.

Nada é mais próprio para ilustrar a poesia de cordel do que a xilogravura.  Pela sua proximidade com o mundo popular, é difícil encontrar um xilógrafo, assim como um poeta de cordel, que não tenha sido também um homem do campo. Eles são também marceneiros, entalhadores, fabricantes de gamelas, de colheres de pau, de cestas, entre tantas outras profissões populares. Com a popularização da xilogravura se desmitifica a elitização da criação artística ao se demonstrar que sua confecção é questão de oportunidade, de aprendizado e de trabalho, aliados ao talento. Quando o acesso ao instrumental foi facilitado, surgiram no meio do povo artistas originais.”

 

Thais analisou a linguagem videográfica, percebendo como a conexão do vídeo com outras linguagens artísticas forma uma nova relação de sentidos, gerando múltiplas ações criativas em trabalhos de videointervenção, videoinstalação, videoperformance, videoteatro, videopoesia, entre outros. A ideia de realizar o projeto final por meio de uma linguagem videográfica teve a intenção de que, tanto a literatura de cordel, como a xilogravura, saíssem do papel e ganhassem “vida”, em personagens caracterizados por figurinos e cenários, em uma performance poética visual e sonora, portanto, audiovisual. Após uma análise sobre a performance como expressão cênica, a autora definiu os vídeo artistas que serviram de referência ao projeto:

 

“A escolha dos cineastas Georges Méliès e Michel Gondry como artistas referência para este projeto se deu pela significativa representação dentro de um contexto artístico, cada um a sua maneira, de valorização de um trabalho artesanal, rústico e ao mesmo tempo extremamente criativo, dentro de uma infinita possibilidade oferecida pelo conceito do “faça você mesmo”, do qual esses diretores são grandes adeptos. Méliès era adepto da junção do teatro com o cinema quando ele foi inventado. E Gondry, cineasta vivo e atuante, insere, tanto em seus videoclipes como em seus filmes, elementos que dialogam com o cinema e com o vídeo, além de outras artes. O que ambos têm em comum é que, para eles, o mundo dos sonhos torna-se possível não pelas inúmeras possibilidades de uso de efeitos especiais tecnológicos, mas sim pela infinita possibilidade de poderem executar os mais diversos projetos criativos por meio de efeitos especiais realizados artesanalmente, mecanicamente, sem a ajuda de tecnologias digitais.”

O processo criativo foi bem detalhado na monografia, deixando um registro da concepção e desenvolvimento do projeto. Desde a pesquisa inicial para a criação do roteiro – uma união de histórias como o clássico Pavão misterioso e as poesias A chegada de Lampião no inferno e A chegada da prostituta no céu – até a escolha da estética contrastada das cores, sem nuances de luz e sombra, e as formas criadas em variados tipos de papel nos figurinos, cenários e adereços. A perspectiva e a profundidade dos cenários são mínimas, apenas para fins de movimentação da cena e sempre dando uma impressão de não perspectiva, como nas xilogravuras. Todos os objetos de cena e os elementos que compõem os cenários são bidimensionais, porém em tamanhos que representem aquele elemento ou objeto em seu tamanho real. Os movimentos das cenas são contidos, mas expressivos, os atores se moveram como desenhos recortados, com movimentos curtos, duros e firmes, brincando com o bidimensional. Os elementos e objetos foram movidos manualmente por meio de cordas, usando o mínimo possível de tecnologias de intervenção na pós-produção. A grande maioria dos efeitos visuais foi produzida de forma mecânica e artesanal, evitando o auxílio da tecnologia digital. Cada cenário tem uma proposta temática diferente, respeitando cada narrativa. A narração da história remeteu à oralidade dos primórdios do cordel, comprometendo-se com a sua linguagem e com a sua musicalidade. A fotografia tem uma luz dura, mostrando o forte contraste da cartela de cores, preta, branca e vermelha.

 

Thais finaliza destacando que “além da maturidade intelectual que o trabalho trouxe, foi também uma grande oportunidade de colocar em prática os anos de estudo, tanto da graduação, quanto, principalmente, da pós-graduação, unindo criatividade ao aprendizado teórico e à técnica adquiridos ao longo deste período. O resultado final é produto de todo esse processo de formação.”

 

Receita para cordel

                        Mudim do Vale

 

[…] Não queira fazer volume
Não force a inspiração,
O cordel tem que ter arte,
Rima e metrificação,
Lembre que o melhor sabor
É da pequena porção.

Se você tem esse dom
Só precisa aprimorar,
Se nasceu pra ser poeta
A rima não vai faltar,
Você acha inspiração
Sem precisar se esforçar.

Uma pitada de rima
Você tem que acrescentar,
Métrica se faz relevante
Para o verso não quebrar,
Na cobertura uma capa
Para melhor ilustrar.
A receita também mostra
O cordel como mensagem,
O autor vira um ator
Do seu próprio personagem,
E assim o poeta faz
Mais perfeita a sua imagem […]

 

 

Palavras-Chave: Literatura de Cordel. Xilogravura. Videoarte. Videoperformance.

A pesquisa resultou na videoarte apresentada abaixo:

 

 

 

 

 

Alguns comentários a partir de olhares sobre imagens de croquis e cenas

 

“Todos os figurinos foram unidos com fita adesiva, ao invés de serem costurados, com a finalidade de representar o contorno presente no entalhe da matriz dos desenhos do xilógrafo, destacando a imagem e fazendo com que o contraste das cores se sobressaia em seus traços fortes e expressivos. As texturas não têm volume, são chapadas (papel sobre papel), representando apenas os detalhes de cada desenho.” Mas da criação se passa à prática, e é aí que vão aparecendo os problemas. Principalmente quando se trabalha pela primeira vez com um material, como no caso da Thais. Neste caso, o papel, um material muito frágil. Além do cuidado ao alfinetar os corpos dos atores, era necessário se estudar como facilitar o movimento deles na cena para que não danificassem os trajes. Por outro lado, a falta de maleabilidade das roupas ajudou ao que se pretendia como encenação: manter o aspecto da bidimensionalidade na rigidez dos movimentos.

MONTAGEM 1-CANGAÇO

Imagem 1- Figurinos e croquis para Lampião e Maria Bonita quando se conheceram

 

 

O caso da prostituta é um exemplo da improvisação necessária pra realização de um trabalho acadêmico em que se conta muito com a ajuda de amigos ou colegas, em um trabalho voluntário. Os desenhos criam uma personagem idealizada, mas que nem sempre é o possível a ser realizado. Na verdade, um problema que também acontece bastante em trabalhos profissionais.

Neste caso, as características do traje foram criadas seguindo as medidas de uma atriz para a criação dos moldes e, consequentemente, para a colagem dos recortes de papel. Mas, na véspera da filmagem, houve um problema e outra atriz a substituiu. O ajuste no seio foi feito com alfinetes na parte de trás. A maquiagem precisou ser invertida, já que a atriz é negra, o que, segundo Thais, enriqueceu a cena e os contrastes de cores. A inspiração para o contorno branco veio de uma pintura de Derlon Almeida, feita na parede de um bar na região da Rua Augusta, que Thais tinha fotografado durante o processo de pesquisa do trabalho.

 MONTAGEM 2-PROSTITUTA

Imagem 2- Figurino e Croqui para a Prostituta

xilo

Imagem 3- Pintura de Derlon Almeida

 

 

O traje do diabo, diferente dos demais, teve cortes pontiagudos salientes, que diminuem, propositalmente, o bidimensional da imagem. As cores da máscara e dos braços foram experimentadas no fundo branco, como o croqui, e depois no vermelho, mas, por uma questão estética, Thais acabou escolhendo o preto. O que deu mais homogeneidade e força para o personagem. No início, a base seria dupla e os recortes e pintura ficariam nele mesmo. Mas foi resolvido colocar uma cartolina cortada com as formas pontiagudas e colar no molde duplo, dando mais firmeza ao traje, o que resultou em uma rigidez tripla, que precisou ser ajustada para não machucar os braços do ator.

 MONTAGEM 5-DIABO

Imagem 3- Figurino e croqui para o Diabo

 

 

Como a encenação inteira se dava na frontalidade, nenhum traje teve sua parte de trás com colagem, somente o fechamento em papel cartolina. Os contornos foram feitos com canetinhas pretas. Em poucos casos, quando necessário ter uma largura mais grossa, a opção foi usar uma colagem de uma tira preta colada. No traje do anjo, foram criados diversos recortes de flores com seis pétalas para serem aplicadas na cartolina branca do molde. Após várias tentativas de fazer a flor branca com os riscos pretos em caneta, Thais decidiu mudar a ideia da construção, já que as flores ficavam sempre com algum tipo de imperfeição aos seus olhos: borravam, escorriam, manchavam… Só o vestido de noiva da Maria Bonita deu certo nesta técnica. Para o anjo, a solução acabou sendo recortar as flores na cartolina preta, depois recortar as pétalas em papel sulfite branco e colar uma a uma, o que deu um certo relevo ao resultado final.

 MONTAGEM 4-O CEU

Imagem 4- Figurino e croqui para o Anjo

 

 

A Flor de Liz foi escolhida como modelo do vestido de noiva porque os cangaceiros acreditavam que era um símbolo de sorte e proteção. Cada flor foi feita a partir do recorte de um círculo, que teve suas bordas dobradas para dentro e pintadas, no verso, de preto, formando a imagem das pétalas. A ideia de ter um papel branco colado em um preto foi pensada, mas a gramatura dobrava e dificultava uma dobra sem tanto relevo nas pétalas. O vestido acabou sendo feito em duas peças (saia e blusa), para facilitar o ato do vestir. Todas as mangas dos trajes também foram feitas soltas, encaixadas nos corpos dos atores, e presas com alfinetes.

 MONTAGEM 3-O CASAMENTO

Imagem 5- Figurinos e croquis de Lampião e Maria Bonita no dia do casamento

 

 

A flor da noiva, nas mãos da aluna e autora, foi pintada no papel branco recortado. As mãos e unhas dos atores também foram pintadas. Os óculos do Lampião foram garimpados em uma loja de fantasias da Rua 25 de Março, no improviso da similaridade com o estilo Harry Potter.

 AUTORA E ELENCO

Imagem 6- Os atores Roberto Savioli e Paula Vilhena com Thais Teresa Lacerda Franco

 

 

A ênfase dada ao processo criativo da literatura de cordel estabeleceu conexões metodológicas entre a arte e a literatura, construindo uma imagem poética. Por intermédio de um trabalho de videoarte, foram representadas poesias extraídas da literatura de cordel. As poesias trouxeram o conceito da história falada, escrita e imaginada. A xilogravura trouxe a idealização imagética ao projeto, pois o desenho saiu da matriz do xilógrafo e criou vida, que foi representada por personagens, figurinos, adereços e cenário, além das tipografias (enunciados escritos).

 

Os professores Fausto Viana e Carolina Bassi de Moura organizaram o Diário dos Futuros Pesquisadores: cenografia, publicado em 2013, com textos de alunos da USP e da Pós-Graduação em Cenografia e Figurino da Belas Artes e disponível online. O segundo volume será lançado no dia 24 de março, durante a Mostra CAC, organizada pelo Departamento de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo. Nele, entre as várias pesquisas de alunos, está o texto de Thais Teresa Lacerda Franco sobre este trabalho. Confira!

 

 

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