Leituras

Rosane Muniz

Entrevista com a cenógrafa e figurinista Kazue Hatano

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A A[L]BERTO 5, revista da SP Escola de Teatro, foi lançada no fim de novembro, em uma edição que traz parte do debate que aconteceu de 11 a 16 de março durante o Palco SP – Encontro Internacional sobre o Ensino da Cenografia, na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, organizadora do evento.

 

Na revista, há textos como: “Cenografia hoje”, do teórico americano Arnold Aronson, “Apontamentos sobre cenografia e seu ensino no Brasil”, do cenógrafo J. C. Serroni, “Expandindo a cenografia: design cênico e práticas oceânicas em Aotearoa, ou Nova Zelândia”, do cenógrafo neo-zelandês Sam Trubridge; “Teatro, cenografia e formação nos Estados Unidos: um panorama”, do professor de cenografia da Brigham Young University (EUA) e também um resumo da roda de conversa sobre práticas cenográficas, que teve participação de Daniela Thomas, Simone Mina, José de Anchieta e André Cortez, coordenados por J. C. Serroni.

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Para a revista, fui convidada a escrever sobre o workshop “A Criação de uma Arte Performática por meio do Exercício da Caligrafia Japonesa”, que aconteceu de 4 a 11 de março de 2013, ministrado pela cenógrafa e figurinista japonesa Kazue Hatano (leia o texto “A caligrafia em performance: uma experiência com Kazue Hatano”, na coluna Já Visto). Foram dias muito agradáveis e de muita criatividade. Além do prazer de estar ao lado de uma querida amiga, com quem divido a experiência de vários encontros internacionais no grupo de figurino da OISTAT, pude me aventurar na poesia da caligrafia e da criação de figurinos ao lado de outros 22 colegas. Muitos já sabem, mas é bom lembrar que a OISTAT reúne estudantes e profissionais da cenografia (iluminadores, cenógrafos, figurinistas, sonoplastas…), arquitetura teatral, tecnologia, educação, pesquisa, comunicação e publicação, além de campos relacionados.

 

Mas o que o Vestindo a Cena traz com exclusividade é uma entrevista com Kazue Hatano!

Leia abaixo:

 

Qual sua intenção inicial ao criar um workshop?

Kazue – Na maior parte do tempo, desenvolvo workshops para criadores ou artistas jovens. Existem diferenças culturais, nacionais, etárias, de gênero e de personalidades… me estimula fazer com que as pessoas se conheçam melhor. As diferenças, às vezes, são intocáveis, mas acho que para se manter a paz, o entendimento pacífico é preciso para que as pessoas se conheçam, se gostando ou não. Isso não importa. Minha intenção com os workshops é promover a colaboração coletiva para que comecem a se entender e a se estimular mais.

 

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Quando está criando um workshop para ser realizado fora do Japão, qual o seu primeiro pensamento?

Kazue – Realmente gosto de observar o processo de criação de outro povo. Me interessa observar o processo de acordo com a minha orientação na criação.

 

Você lembra de algo inusitado ocorrido em um workshop?

Kazue – Estou ficando mais velha, então, naturalmente preciso de um tipo de uma “mãozinha” e estímulo dos alunos nas lembranças. Mas posso dizer que a maior parte do que posso imaginar acontece com as pessoas.

Aqui é um país, participantes com uma só nacionalidade, mas em Praga, há dois anos, tivemos pessoas de 28 países. Então, é claro que é diferente. Porém, todo ser humano criativo tem de ter honestidade para poder expressar alguma coisa para outras pessoas. É quase o mesmo para todos. Uma coisa que sempre tento realizar nos workshops é criar coisas imaginativas, do meu ponto de vista. O primeiro passo é pedir para eles quebrarem barreiras, transporem seus pensamentos. Em seguida, peço para os alunos observarem ou pensarem com mais profundidade para mudar um pouco a direção.

Para quê realizar um workshop se for para criar algo convencional? Posso usar a imaginação, entender certa pessoa, alguma habilidade, um sentido… E assim, fazê-los conhecer um lado diferente deles, que eles mesmos ainda não conhecem. Tentam ver, mas é muito difícil.

 

Você falava das diferenças… Em Praga, trabalhou com 28 países e aqui só com um…

Kazue – O processo é quase igual porque só posso falar em inglês. É claro que posso falar em japonês, mas dentro de um grupo sempre há pessoas que entendem a língua inglesa e isso ajuda bastante. A maioria dos participantes aqui no Brasil só fala português, mas entendem algo do inglês. Isso também ocorreu em Praga. Às vezes é difícil traduzir os detalhes, pois na nossa área usamos certas palavras que as pessoas em geral não usam. Desta vez tive sorte durante o workshop, pois você me ajudou bastante na tradução.

 

Os japoneses são muito tradicionais e têm muita sensibilidade na utilização dos materiais. Percebe diferença em relação ao modo de criação dos estrangeiros?

Kazue – Não vejo diferença. O processo de criação segue um padrão internacional. Eu posso comunicar… Há sempre um criador ou artista do qual se exige que tenha sensibilidade ou nível intelectual. É quase o mesmo. Isso depende da linguagem. Leva tempo para se comunicar e colaborar entre si gradualmente. A diferença cultural, ou a diferença de língua ou de gêneros é muito aproximada. Então, conhecer as diferenças entre nós é realmente importante. Nós nunca pensamos que os criadores são os mesmos em todos os lugares. Esse é um tipo de abordagem perigosa. Para que um workshop seja realizado com sucesso, tento usar os materiais disponíveis em outros lugares. Em Praga, trabalhamos com papel japonês e caligrafia. Aqui, usamos os papeis brasileiros e caligrafia.

O que acho realmente positivo é que, durante o exercício de caligrafia, acontece como uma meditação, que nos permite realmente nos concentrarmos para dar forma no papel com a tinta. E a caligrafia também exige muita concentração, fazendo com que geralmente o lado psicológico desapareça. A pessoa sente muita paz, fica calma, deixa nada na sua mente. Começar a criar significa partir do zero, do papel em branco. Isso é realmente bom. Então, qualquer coisa que venha a acontecer, mesmo que só como um exercício, partir do exercício da caligrafia é maravilhoso. E depois, usar ou não usar esse material não importa, mas sim partir da calma e começar a trabalhar em grupo.

 

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O que sentiu a respeito da relação entre a criação e o Kanji de cada grupo neste workshop?

Kazue – A forma de cada letra tem seu próprio significado para a criação da forma desconhecida das coisas, para expressar algum significado especial. Mas como resultado do workshop, os significados são mais bem apresentados na performance. Talvez performance seja uma palavra errada neste caso, e sim ao mostrar o resultado por meio dos movimentos, pelo uso dos materiais depois do workshop para mostrar as criações para outras pessoas.

 

Em Praga, dançarinos convidados fizeram as apresentações com o resultado da oficina, o que aqui foi realizado pelos próprios criadores. Sua intenção era fazer um show ou uma performance?

Kazue – A variedade dos participantes foi totalmente diferente em Praga. Aqui eram mais alunos do curso de cenografia, além de professores. Como nosso trabalho é sempre atrás das cortinas, eu realmente queria voltar as luzes para eles, fazer com que vestissem os figurinos que eles mesmos criaram e expressar algo com seus próprios corpos pelo menos uma vez na vida. No futuro, quando estes profissionais começarem a trabalhar no design de figurinos ou no cenário, ou em qualquer forma de design, creio que esta experiência talvez os ajude a entender os outros criadores com mais facilidade. Conforme o movimento, minha criação pode estar errada, fazendo com que os atores se sintam desconfortáveis cantando ou atuando. Fatos que podem ser sentidos. Por esse motivo, essa é a oportunidade para se ter esse tipo de experiência. Gosto de pedir que adquiram experiências diferentes. Sempre incentivo os alunos a irem para o exterior e se encontrarem com pessoas e culturas diferentes, a acumularem experiências para estimular a imaginação e encorajar suas vidas. Isso é muito importante para a criação de arte.
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Como resultado do workshop, os figurinos se apresentam quase como peças de arte porque teve a origem e o resultado na cena. Como este método ou técnica pode ser usado quando aplicado aos figurinos de uma peça para ajudar na dramaturgia?

Kazue – Como disse antes, posso antecipar como um designer mais jovem cria ou decide fazer o design para esse workshop como um processo. Eles sentem segurança, ou mesmo sem perceber, acabam protegendo a si mesmos. Por esse motivo, não queria dizer onde está a armadura. O propósito do workshop não é criar uma peça de arte.

Creio que se pode usar o workshop para o processo de criação de arte. Assim, o sentimento tem de ser honesto no nível psicológico e intelectual. Você pode usar a imaginação de uma forma tridimensional. Esse tipo de coisa é importante. Posso antecipar os aspectos convencionais que quero transpor, quebrar o tijolo do muro. Uma coreógrafa sueca que encontrei disse que admirava minha ousadia. Eu tenho de ser corajosa porque tenho essa responsabilidade. Posso assumir a responsabilidade porque sei que, quando algo está errado, mais permaneceu em resultado do workshop, tenho de mostrar o resultado de uma forma que seja boa. Tenho que mostrar que aquilo funciona bem. Posso ajudar o quanto for possível, basta me dar cinco minutos. De outro modo é só um navegador. Não quero mostrar para o público um trabalho displicente, nem quero ficar triste com o participante.

Se alguém for ousado e tiver confiança está bom para mim. Então, essa é a confiança que os aprendizes precisam ter durante os cinco dias do workshop construindo cenários e figurinos. Eu digo: “Finalmente todos podem ter confiança e podem expressar e começar a desfrutar, se comunicar com os outros e ao mesmo tempo se envolver no trabalho em grupo”. O que realmente queremos é poder nos expressar. Essa é a exigência de nossa profissão.

 

A respeito da utilização do papel como material para o teatro, qual é o sentido do experimento contínuo com o papel?

Kazue – Acho que o papel é um material bastante prático e barato no mundo todo. É também ecológico, está sendo reciclado. Então, continuo usando o papel de qualquer origem. Antes de ir para o país, entro em contato com os organizadores. Por exemplo, em Jacarta, Indonésia, os materiais locais eram ótimos e muito divertidos de serem trabalhados, como os bambus e um papel que parece plástico. No Brasil, achei maravilhoso o papel de cozinha, as ferramentas, a máquina de costura baby…

 

Você já criou um figurino ou cenário para uma peça teatral usando papéis?

Kazue – Sim, há muitos anos, para uma peça japonesa chamada Exposição Familiar. Os avós morrem e os parentes têm de deixar a casa. A despedida dos parentes não poderia ser mostrada de uma forma ordinária. Então, qual material seria mais adequado? A casa era imaginária, assim, escolhi um material fácil que os personagens pudessem atravessar quando deixavam a casa. Isso tinha um custo elevado porque era preciso repor o material em todas as apresentações.

 

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O que fica do Brasil na sua mente?

Kazue – Essa impressão maravilhosa do Brasil, de como as pessoas são maravilhosas do outro lado do mundo. Vou levar o que vivi quando estive aqui trabalhando no workshop, fazendo compras, indo para o restaurante ou conversando com meus amigos brasileiros. São pessoas que têm paixão, são criativas, criam com paixão. A comida é boa. Realmente queria conhecer mais coisas do Brasil e já sinto saudades das pessoas que encontrei em São Paulo.

 


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KAZUE TCHAU

 

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