Leituras

Caio Sanfelice

MEU (RÁPIDO) ENCONTRO COM SANDY POWELL

Caio Sanfelice é um artista multifacetado. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, atua como cenógrafo, figurinista, maquiador, cabeleireiro e fotógrafo. Atualmente aprimora sua poética em produções independentes na capital Inglesa, onde participou de um encontro super interessante e, a nosso convite, divide sua experiencia aqui no Vestindo a Cena.

 

Cabelos curtos e alaranjados, blazer preto com detalhes verdes, sapatos dourados e um sorriso contido no rosto. Foi assim que Sandy Powell chegou ao Workshop The Power of Costume in Film, realizado dia 24 de novembro de 2015, no Museu Victoria & Albert.

A figurinista Sandy Powell

A figurinista Sandy Powell

Nascida em Londres, em 1960, a figurinista sempre adorou roupas e aprendeu a costurar com a mãe, ainda criança. Frequentou a faculdade Saint Martin’s School of Art  e hoje é uma das principais figurinistas do mundo, tendo sido nomeada para prêmios de Melhor Figurino pela Academia: ganhou o Oscar em 1999, pelo filme Shakespeare Apaixonado; em 2005, por O Aviador; e em 2010, por A Jovem Victoria. Recebeu nove indicações ao BAFTA, vencendo, em 1999, com Velvet Goldmine e, em 2010, com A Jovem Victoria.

Shakespeare Apaixonado

Shakespeare Apaixonado

 

O Aviador

O Aviador

The Young Victoria

                                                                          A Jovem Victoria

Sandy Powell é normalmente relacionada ao cinema e em especial ao diretor Martin Scorsese, com quem já trabalhou em seis filmes. Apesar de ter se consagrado na grande tela, iniciou a sua carreira no teatro.

Digna de um currículo admirável, Powell esbanjou simpatia em sua palestra. Descontraída e ao mesmo tempo tímida, discorreu em um tom intimista e generoso durante toda a conversa.

Começou nosso encontro dizendo que sempre inicia um figurino a partir da roupa íntima. É claro que é preciso saber em que época o projeto se passa, mas são as silhuetas das roupas de baixo que definem todo o resto e que sempre servem como base para a pesquisa. Disse também que um bom relacionamento com o diretor é essencial. Ter um alinhamento de ideias estabelece confiança, gera cumplicidade e dinamiza o processo criativo.

“Um exercício fácil e útil para se começar um projeto de figurinos é juntar todas as referências que estão relacionadas ao personagem/filme e criar uma base de dados, de preferência com papel impresso e objetos que possam ser colocados em uma mesa. Este processo facilita a visualização e torna mais fácil sentir a atmosfera do que se pretende fazer.”

Croqui da Cinderela

Croqui da Cinderela

Indagada sobre as facilidades da internet hoje em dia, ela se diz feliz com a praticidade e também utiliza este recurso, mas ainda prefere as revistas, livros e tudo aquilo que possa ser tocado.

Sobre oportunidades de trabalho, Powell acredita que cada pessoa tem um destino, mas que é preciso bater de porta em porta e dar a cara a tapa, se apresentar como disponível e ter vontade de trabalhar. Confessou que um dos seus primeiros contatos de trabalho no cinema ocorreu em um nightclub, quando convidou um diretor de cinema para uma peça de teatro em que ela havia trabalhado. O diretor foi ver a peça, gostou e a chamou para fazer parte da sua equipe no filme Caravaggio.

Segundo ela, atualmente o mercado carece de modelistas, daquelas pessoas que fazem moldes e cortam o tecido. “A maioria das pessoas quer ser designer, mas poucas se preocupam com a base de uma roupa, o que é crucial na qualidade final de um figurino”, observou.

A Tempestade

A Tempestade

Por experiência própria, concordo que uma boa formação em corte, costura e modelagem é um diferencial na elaboração de um figurino, inclusive pode colocar o profissional à frente no mercado de trabalho. No imaginário dos designers tudo é possível, mas saber exatamente onde vai o corte da manga, o tipo de tecido que será usado, onde ficam as pregas e o sentido do fio do tecido é o que tange a realidade. Em um mundo com tanta facilidade de informação e possibilidade de acesso rápido às correntes artísticas, o processo criativo já inicia invertido. Assim, é comum já começar pela desconstrução. Talvez seja pertinente entrar na contramão e voltarmos ao bê-á-bá, começando com uma boa base.

Diante do intenso fluxo de trabalho em que Sandy Powell se encontra é imprescindível amparar-se em uma boa equipe. Apesar de supervisionar todos os figurinos, ela dispõe de pessoas nas quais confia para apoiá-la, especialmente em grandes produções. Aliás, segundo ela, delegar tarefas e cobrá-las é uma das funções de um figurinista, que precisa confiar e acreditar na equipe que tem.

A renomada e experiente figurinista adverte, ainda, que não podemos nos esquecer de dois braços importantes do visual de um personagem: cabelo e maquiagem. Eles precisam andar de mãos dadas com o figurino, pois, sem harmonia, um pode destruir o outro completamente.

Entrevista com o Vampiro

Entrevista com o Vampiro

Outra informação que todos desejavam saber e que é fundamental para o orçamento de um uma produção foi: “Onde comprar matéria-prima (tecidos, aviamentos, corantes, pigmentos etc)?”.

Infelizmente, a cada dia tem sido mais difícil encontrar boas casas de tecido, principalmente na Europa. Tem se tornado comum comprar pela internet ou por meio de pequenas amostras de tecido. Isso prejudica o trabalho do figurinista, pois é fundamental tocar, sentir a textura e ver o caimento de cada tecido.

Para minha surpresa, ela disse que normalmente compra tecidos nas lojinhas fuleiras de Shepherd’s Bush, em Londres (o que seria uma espécie de 25 de março ou o bairro do Brás de São Paulo, só que na capital Inglesa). Ela confidenciou, inclusive, que os vestidos das irmãs da Cinderela, foram feitos com poliéster barato, comprado por £1 libra/metro. Depois de uma longa risada, ressaltou que não é o valor do material que importa, mas sim o resultado final (que conta com um bom corte, claro).

A madrasta com as irmãs da Cinderela

A madrasta com as irmãs da Cinderela

Quando questionada por não ter enveredado pelo caminho fashion, ela disse que no início de sua carreira chegou até a cogitar esta possibilidade, mas com o passar do tempo percebeu que o seu prazer estava em criar personagens. “A grande diferença entre um estilista e um figurinista é que o primeiro cria para alguém comum, uma pessoa qualquer, já o figurinista cria para alguém especifico, para um personagem que tem uma história para contar, o que faz toda a diferença.”

Quem conhece o trabalho de Powell já deve ter notado a recorrência de um guarda-roupa de época. Belíssimas vestimentas datadas entre os séculos XVI e XIX nos fazem pensar sobre uma possível tendência por esta temática. Entretanto, ela comenta que não existe preferência por uma época específica, e que esta recorrência foi apenas uma casualidade. E ainda ressalta que gosta mesmo é de um bom desafio e que espera poder fazer coisas diferentes a cada novo trabalho.

Gangues de Nova York

Gangues de Nova York

No patamar em que Powell se encontra, é comum lidar com famosos e esta era, inclusive, uma das curiosidades dos participantes do evento. Segundo ela, o mais importante, seja famoso ou não, é criar uma relação amigável com o ator. É preciso fazer com que ele confie em você, acreditando que você fará com que ele fique melhor e que o figurino o ajudará a definir o caráter do personagem. Quando se trata de uma personalidade famosa, porém, diz ela que o grande problema é o tempo, pois normalmente eles estão muito ocupados.

Falando ainda sobre a fama, ela disse que adora colocar a mão na massa, comprar tecidos e visitar brechós. Ressaltou que nem todas as produções têm um grande orçamento e que é preciso adaptar-se às circunstâncias. Atualmente, por exemplo, ela trabalha em uma produção de baixo orçamento e conta com estagiários que nunca trabalharam com cinema, pois não havia verba para contratar alguém mais experiente.

Neste ponto, confesso que quase levantei a mão e me ofereci para trabalhar com ela, mesmo que fosse para segurar tecido. Me senti próximo dela, como se tivesse criado um túnel imaginário entre o teatro e o seu atelier.

Como um jovem artista e recém-chegado à Londres, é evidente que estamos em busca de um lugarzinho ao Sol (raro nesta época do ano) no mercado de trabalho internacional e este discurso me acendeu a esperança de um dia poder ter o prazer de trabalhar com alguém que admiro tanto. Mas, por outro lado, me despertou outra questão bastante controversa: até quando trabalharemos de graça ou ganharemos um valor simbólico? Confesso que, às vezes, sinto que as pessoas se aproveitam desta situação para tirar vantagem desta nova mão de obra. Sei que experiência vale mais que papel moeda, mas acredito que é preciso refletir e ponderar, pois esta é uma questão bastante delicada e que atinge vários setores artísticos. É muito comum a não valorização do figurinista em um projeto, bem como do maquiador, cabeleireiro, aderecista, iluminador, enfim de toda a turma dos bastidores. É preciso nos conscientizar da nossa importância e mostrar a diferença que um bom trabalho visual faz a uma obra.

O novo trabalho de Powell estreia sexta-feira nos cinemas. O filme chamado Carol é baseado no romance The Price of Salt, da escritora Patricia Highsmith. É estrelado por Cate Blanchett e conta a historia do romance entre duas mulheres na década de 1950, em Nova York. Segundo Sandy Powell, é um filme maravilhoso do qual se orgulha muito de ter participado.

Carol

Carol

 É claro que não poderíamos deixar de falar sobre o filme Cinderela.

Sendo a verdadeira fada-madrinha da princesa Disney no filme de 2015, Sandy disse que foram precisos 250 metros de tecido para fazer oito saias, cada uma com um tom diferente de azul, verde e roxo, e que o vestido foi todo ornamentado com 111 mil cristais Swarovski. Acrescentou borboletas ao vestido como símbolo da transformação de Gata Borralheira na mais bela do Baile. Confessou, inclusive que de todo o guarda-roupa, o vestido Azul foi o mais difícil de fazer, tendo a preocupação de que ele fosse muito fluido, já que a cena mais importante do filme é a valsa no Baile e, nela, a princesa precisava parecer flutuar.

Cinderela

Cinderela

Apesar de contar com a liberdade total para a confecção dos figurinos, Sandy não quis mudar a cor original da animação de 1950. Disse que deveria haver mudanças, mas não muitas: “a Cinderela tinha que estar de azul”.

Foi ela também quem desenhou o icônico sapatinho de cristal, com a ajuda da Swarovski. Foram necessárias seis versões para se chegar ao resultado final. O curioso é que o sapato tão famoso é apenas um adereço, uma vez que não pode ser calçado. Aliás, existem oito cópias do sapato, que estão em exposições pelo mundo.

Sapatinho de cristal do filme Cinderela

Sapatinho de cristal do filme Cinderela

Depois dos sapatinhos de cristal e do belíssimo vestido azul para o baile, Sandy ainda precisou pensar em um vestido de noiva digno de uma princesa. Disse que também foi um desafio, já que não pretendia criar uma versão melhorada do vestido do baile, mas sim algo diferente e simples. O vestido foi todo feito em organza e seda bege, pensado para ser efêmero e belo, pois a Cinderela ganha o coração do príncipe com a sua bondade e isso deveria transparecer na roupa, conferindo um visual modesto e puro, mas ao mesmo tempo digno da realeza.

Vestido de noiva da Cinderela

Vestido de noiva da Cinderela

Depois deste rápido encontro e de ter dito um singelo “eu adoro seu trabalho” sai com a sensação de estarmos mais próximos do que eu podia imaginar. A trajetória de vida, os problemas, as dúvidas e o jeito simples trouxe Sandy Powell ao mundo real.

Fiquei bastante feliz em perceber que por mais importante ou famoso que você seja, algumas coisas permanecem as mesmas.  A essência da profissão é a intersecção que une todos, independente do número de Oscars que você tenha ganhado. É a paixão por fazer e colocar a mão na massa que o faz Figurinista.

Segue uma lista dos seus principais trabalhos no cinema:

  • Edward II (1991) (vencedor do Evening Standard British Film Award)
  • Orlando (1992) (indicado ao Oscar)
  • The Crying Game (1992)
  • Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles (1994)
  • Rob Roy (1995)
  • The Wings of the Dove (1997) (indicado ao Oscar)
  • Velvet Goldmine (1998) (indicado ao Oscar)
  • Shakespeare in Love (1998) (vencedor do Oscar)
  • The End of the Affair (1999)
  • Gangs of New York (2002) (indicado ao Oscar)
  • Far from Heaven (2002)
  • Sylvia (2003)
  • The Aviator (2004) (vencedor do Oscar)
  • Mrs Henderson Presents (2005) (indicado ao Oscar)
  • The Departed (2006)
  • The Other Boleyn Girl (2008)
  • The Young Victoria (2009) (vencedor do Oscar)
  • Shutter Island (2010)
  • The Tempest (2010) (indicado ao Oscar)
  • Hugo (2011) (indicado ao Oscar)
  • The Wolf of Wall Street (2013)
  • Cinderella (2015)
  • Carol (2015)

 

Por Vestindo a Cena:

Leia a análise escrita por Fausto Viana e Rosane Muniz sobre os figurinos de Sandy Powell para o filme A Jovem Victoria, um dos indicados ao Oscar de Melhor Figurino 2010 e que, dias depois, foi eleito o vencedor. Fonte: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, D6, 05 mar. 2010.

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