Leituras

CAROLINA BASSI DE MOURA

COBERTURA DO II SIEP FIGURINO

Dando continuidade ao que começou no ano passado, tivemos este ano, em Fortaleza, o II Seminário Internacional de Estudos e Pesquisas em Figurino (II SIEP Figurino), com o tema: O Figurinista Artesão. O evento aconteceu no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, de 6 a 8 de setembro de 2013, com visitações, oficinas, mesa-redonda e performances. O evento seguiu ainda com um encontro nomeado “Loucos por Figurino”, que aconteceu no dia 10 de setembro, dentro do 9º Colóquio de Moda, na Universidade Federal do Ceará.

O II SIEP teve início com duas oficinas, ministradas pelos figurinistas Beth Filipecki e Samuel Abrantes.

 

Oficina com Beth Filipecki: Uso de Rendas em Traje de Cena

Beth Filipecki, sendo mais reconhecida por seu trabalho na televisão, com telenovelas e séries, ainda que também tenha realizado lindos trabalhos no cinema nacional, apresentou no primeiro dia muito sobre suas influências artísticas e usou como estudo de caso a novela Lado a lado para falar um pouco sobre o seu processo criativo. Falou do traje de cena como um poderoso elemento de construção, não apenas do personagem como da narrativa.

 

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Beth demonstrou o processo criativo do figurino do personagem Constança, interpretado por Patrícia Pilar na novela “Lado a lado”, exibida em 2012 pela TV Globo.  À direita, outro vestido usado pelo mesmo personagem, acrescido de outros tecidos rendados que podiam ser ajustados de diversas maneiras, e que conferiram um ar diferenciado de nobreza ao traje do personagem.

 

A figurinista, que já fez diversos trabalhos ambientados no século XIX, parece gostar muito de trabalhar com peças obtidas em brechós ou coleções para compor os trajes de cena, nem que sejam retrabalhados e sofram, posteriormente, ainda algum tipo de interferência. Os trajes, dessa forma, acabam aparentando sua história, seu uso, seu gasto pelo tempo e auxiliam o personagem a ganhar vida no corpo do ator em cena.

Em casos em que a figurinista não pôde contar com a compra de peças usadas, ou que, por alguma razão, tenha sido necessário contar mais com a confecção total das peças do que com a mistura de itens já existentes, Beth diz gostar de inventar, para estes materiais, uma história que se relacione com o personagem, que individualize o traje, ou ainda, o modo como ele foi concebido.

A figurinista também salientou a importância dos ensaios para a concepção de um traje de cena. No caso de Lado a lado, a experiência dos ensaios foi fundamental para a criação dos trajes de Isabel, antagonista do personagem Constança. Isabel, interpretada por Camila Pitanga, além de possuir um caráter de leveza, tinha uma profunda relação com a dança. E seus trajes, portanto, acompanham este perfil, permitindo uma variedade muito maior de movimentos com tecidos mais amplos e leves. Para os seus trajes de dança na trama, a referência foi a bailarina da segunda metade do século XIX, Loïe Fuller.

Em termos de equipe, Beth Filipecki valoriza os novos contatos que faz, sempre que pode, em experiências como esta do SIEP Figurino, estando em uma região de tantos artesãos. A figurinista conta ter estabelecido parcerias longas e importantes com pessoas que trabalharam com ela posteriormente em diversos projetos em que a artesania se fez importante. Em Lado a lado, revela que na ausência de um profissional que produzisse as rendas mais desejadas por ela (e para otimizar o tempo na época) uma alternativa para dar uma impressão de riqueza e de mais especialidade ao traje da rica vilã, Constança, foi unir tipos de renda diferentes, costurando-os uns aos outros, formando uma nova trama.

Beth conta também que costuma não apenas envelhecer os trajes antes de eles chegarem à cena – o que é um procedimento necessário para que os trajes ganhem mais verdade, seja em teatro, cinema ou televisão -, mas costuma tingir os figurinos que produz, usando técnicas diferenciadas para obter resultados únicos e bastantes sutis, delicados como uma aquarela.

 

Oficina com Samuel Abrantes: Uso de Rendas nos Trajes de Carnaval

Samuel Abrantes, figurinista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cria para o Carnaval da cidade do Rio de Janeiro e partiu para a prática na sua oficina. Trouxe aos participantes um pouco sobre seu processo de trabalho com rendas de todo e qualquer tipo, incluindo outros materiais que acrescentem texturas, tais como tules, tintas relevo e termo-ativas. Além de estampas que conferem a sensação de texturas oferecendo maior preenchimento para a área em que são aplicadas, e também remetem à renda, dependendo do modo de utilização.

O figurinista ofereceu a cada um dos participantes, logo após a oficina de Beth Filipecki, um retalho de igual tamanho, um tubo de tinta relevo e solicitou a todos que, em casa, preparassem para o dia seguinte, alguma textura com aquele material. Em sua oficina, então, Samuel propôs a criação de três “trajes-experimentos” proporcionando, por meio desta atividade coletiva, que os participantes pudessem vivenciar o estilo de criação com aplicação de texturas e sentissem os possíveis resultados estéticos, o caimento das tramas resultantes daquele processo.
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A performance realizada por Renata Cardoso, Paula Baioco e Bianca Matsusaki. À direita, o detalhe do arranjo de cabeça mistura franzido de tule e crochê feito com fios de cobre. Produzido por Marcela Matos e vestido por Bianca Matsusaki, com um belo sorriso!

O resultado foi “vestido” por três participantes da oficina, que experimentaram, ao final, os movimentos proporcionados pelos trajes criados coletivamente. As três participantes “desfilaram” pelo Centro Cultural Dragão do Mar, que sediou as oficinas, seguindo das salas para o auditório – pararam até o trânsito ao atravessarem a rua!

 

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Renata, Paula e Bianca unidas pelo traje no II SIEP Figurino

 

Mesa redonda e “Loucos por Figurino”

Arrematando as oficinas, tivemos também uma mesa redonda com os dois oficineiros, Beth Filipecki e Samuel Abrantes, e o figurinista local Dami Cruz. Fausto Viana (ECA/USP) e Ricardo Bessa (Universidade Católica de Fortaleza) mediaram a conversa.

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 Fausto Viana e Ricardo Bessa mediam a mesa redonda com Samuel Abrantes, Beth Filipecki e Dami Cruz

 

O evento foi caloroso, contando com perguntas propostas por todos os participantes do Seminário e sacudiu muitas polêmicas em torno, não apenas sobre o traje de cena, como também a respeito da formação do figurinista. Afinal, como será que a formação deste profissional vem sendo pensada nas diversas escolas, sejam elas universitárias ou não?

 

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Fausto Viana abrindo as discussões da tarde de Loucos por Figurino

Esta questão é tão importante e despertou tal interesse em todos os presentes que, inclusive, continuou na tarde de terça-feira, dia 10 de setembro, já dentro do Colóquio de Moda, quando foram reunidos todos os “Loucos por Figurino” numa tarde de apresentações de temas polêmicos – o traje de carnaval e o traje do teatro contemporâneo – exibição de depoimentos nacionais e internacionais (estes, enviados pela nossa anfitriã neste site, Rosane Muniz, diretamente de Cardiff), além do convite a performances, que contou com a participação da professora Jo Souza (numa alusão a Frida Kahlo). Discutiu-se, ao encerrar aquela “louca” e deliciosa tarde, qual seria, na visão de estudantes, pesquisadores e figurinistas, a formação ideal deste profissional do figurino. Muitas ideias foram lançadas e tenho realmente a sensação de que a conversa estava tão boa que nós só fomos embora pois a sala precisava ser usada nas demais atividades do Colóquio. Bom sinal! A conversa com certeza continuará.

 

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 A performance proposta por Jô Souza, em alusão à pintora Frida Kahlo

Visitações

Não podem ficar de fora dos nossos comentários as visitas que fizemos nas manhãs de Fortaleza, antes das oficinas. A primeira delas foi à casa da bordadeira Dona Maria, em que pudemos contemplar um verdadeiro bordado de histórias. Autodidata, produz diversos tipos de bordados, em saias, vestidos, toalhas pequenas, médias, grandes e imensas! Além disso, suas rendas já foram procuradas por estilistas bem famosos, como Lino Villaventura, compondo belos trajes vendidos a preços muito diferentes do que os cobrados pela artesã. A parceria, portanto, infelizmente não parece tê-la levado a uma condição de vida diferente da que tinha antes de conhecê-lo, pois como pudemos ver, Dona Maria segue trabalhando em sua casa com mais três profissionais, outras senhoras como ela, com muita garra, suor, simplicidade e bom humor.

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Dona Maria em seu atelier, com seus bordados no detalhe

Visitamos também o Museu da Renda Casa José de Alencar, local que recebe este nome, pois o escritor, José de Alencar, nascera na propriedade, em 1829, indo morar no Rio de Janeiro logo após completar nove anos de idade. A casa teria sido mantida pela família do escritor como uma casa de campo e, hoje, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN), está ligada à Universidade Federal do Ceará. O local, transformado em Museu e centro de atividades culturais, é visitado por turistas, estudantes e pesquisadores, interessados em conhecer, entre as diversas coleções mantidas pelo museu, a que foi intitulada “Arte popular e rendas do Ceará”. Esta coleção apresenta, além de objetos variados em cerâmica, madeira e couro, rendas de bilro coletadas por todo o interior do estado pela pesquisadora Valdelice Girão.

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Almofada e bilros utilizados nesta técnica de produção de rendas, com exemplares produzidos no Ceará

 

As experiências nos deram uma impressão muito mais viva desta arte produzida por tramas tão finas, de tão delicado desenho, que pode nos auxiliar, como figurinistas, a construirmos os personagens segundo “tramas” de maior complexidade e camadas muito mais ricas depois desta pesquisa.

De forte interesse histórico e cultural também foi a visita feita ao Teatro José de Alencar, construído em 1907. Tão rica a visita que escreverei, em seguida, um outro texto com algumas fotos só sobre essa experiência.

As atividades do II SIEP Figurino foram muitas e serviram certamente para aquecermos os motores para as atividades seguintes, inseridas no 9o. Colóquio de Moda, que se seguiu ao seminário: o Grupo de Trabalho Traje de Cena, com apresentações de artigos, comunicações orais, debates e nossa tarde de “Loucos por Figurino”, sobre a qual vocês tiveram aqui uma “palhinha”!

Mal podemos esperar pelo III SIEP Figurino, em 2014, que acontecerá em São Paulo. Aguardemos!

2 Comentário(s)

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  • Olá. Já se sabe onde e quando o evento acontecerá em 2014? Obrigada!
    ps.: o obrigada de cima vale para todo o conteúdo disponibilizado por este projeto incrível!

    • Olá Karita, obrigada pelo elogio ao conteúdo disponibilizado pelo vestindoacena. Nosso objetivo é que este espaço sirva exatamente para isso: termos a possibilidade de acesso às tantas informações que são trocadas no Brasil e no mundo pelo profissionais do design cênico.
      Quanto ao III SIEP Figurino, acontecerá em 2014 na cidade de São Paulo, de 4 a 14 de agosto. Em breve a programação será divulgada.

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