Conheci o professor Cyro del Nero quando fazia meu mestrado na Escola de Comunicação e Artes na USP. Fiquei surpresa quando soube que teria aulas de cenografia no ateliê do professor, fora do campus.
Nossos encontros começavam pontualmente às 9h, com aulas expositivas e práticas, sempre com direito a cafezinho e bolachinhas no intervalo.
O acesso à sua biblioteca é livre aos alunos e o professor é bem rígido: não empresta seus livros. Por outro lado, comprou uma máquina de Xerox e permite que se façam quantas cópias se façam necessárias para as pesquisas de cada aluno. É claro que a vontade é passar a vida ali, tirando cópias (rsrs), mas, como um exercício de educação, limitávamos nossa ambição e passávamos os minutos que sobravam fazendo consultas e lendo…
Bom… por que relembrar Cyro del Nero?
Porque esta semana temos muito a falar dele.
Na segunda (24/08), ele começa um novo curso na Escola São Paulo (além do curso de História da Moda que deu lá nas férias): História da Arte, Arquitetura e Vestuário.
No dia 02 de setembro, às 19h, lançará no SESC Pinheiros, seu novo livro (Máquina para os deuses – anotações de um cenógrafo e o discurso da cenografia), pela Editora SenacSP/Edições SESCSP.

Nesta quarta-feira próxima (26/08) estará no programa do Jô Soares falando sobre o livro e outras histórias, é claro.
E hoje, 22 de agosto, seu pai estaria fazendo 109 anos!
Em homenagem, escreveu um texto que enviou aos amigos. Achei muito bonito e emocionante e escrevi para ele pedindo autorização para a publicação aqui no blog.
De: Cyro del Nero
Enviada em: quinta-feira, 20 de agosto de 2009 13:56
Para: Rosane Muniz
Assunto: Re: A escrivaninha do meu Pai
Ficarei honrado pela reprodução do meu texto no seu blog
Cyro
Leiam e emocionem-se:
A ESCRIVANINHA DE MEU PAI
Levei até meu analista um fato – e eu já tinha 40 anos – ocorrido em minha juventude.
Foi o seguinte. Eu sempre estive curioso pela escrivaninha de meu pai. Era uma daquelas que têm um tampo de madeira que corre e fecha a mesa e seus escaninhos. Sempre tive curiosidade pelo conteúdo que eu apenas entrevia e que meu pai defendia abrindo a escrivaninha para um rápido trabalho e então ele imediatamente, a fechava .
Não resistindo, compulsivamente, um dia resolvi violar a escrivaninha secreta de meu pai. Com uma faca levantei com facilidade o seu trinco e fiz correr a tampa abrindo para mim os seus segredos. Descobri que os ricos escaninhos guardavam além de cartões, fotos e papéis, pequenos objetos que me pareciam fantásticos, como meia dúzia de cartuchos vazios de balas de rifle que certamente ele guardara desde a revolução de 32 quando saíra fardado para uma aventura nunca imaginada. Havia ainda pequenos objetos como um estranho anel, caixinhas apenas recheadas de agulhas e grampos, um pente feminino de marfim com um ornato barroco, cartas com selos de impérios que eu desconhecia, estampilhas, um velho canivete, uma pedra, uma espátula dourada, um broche antigo, cartões-postais com imagens da França e Portugal, uma moeda chinesa, um pequeno frasco de um líquido azul com um rótulo em alemão.
Afinal, que relação amorosa meu pai tinha com aquela coleção? Por que o segredo?
Contei isso para meu analista, Horus Vital Brasil e ele me perguntou algo que resume a aventura humana.
- Cyro, você queria saber se havia amor antes de você?
Todas as circunstâncias nos são inéditas e é necessário saber a origem e o porquê desse desconhecido que chamamos Destino ou simplesmente Existência e se há amor que os sustente. Isto resume a aventura humana.
Imagino o homem primitivo sem uma sociedade na qual espelhar-se ou poder inquirir. O ineditismo das revoluções físicas da terra – explosões vulcânicas, maremotos, raios e relâmpagos durante os quais no primeiro momento esse homem deve ter feito gestos nascidos da ignorância e do susto. Gritou em diversos tons – e gerou para os séculos vindouros a música; saltou e correu de medo – gerando para o futuro a dança e criou uma liturgia quando sentiu que Alguém anterior a ele, devia estar por trás de todas as coisas.
E imagino que muitas vezes atônito, se perguntou se tudo aquilo continha uma salvação, um prêmio, um calor afetivo, se tudo aquilo continha nos seus gestos sinais mensageiros de amor por ele.
Talvez ele tenha reconhecido alguns sinais… durante a Primavera.
Uma de nossas essências é o ineditismo de nossa existência e muitas vezes na juventude até duvidamos ter nascido daquele casal que se diz ser nossos pais. Muitos duvidaram e procuraram o que supunham ser um destino correto onde houvesse amor.
Édipo o fez e estava certo: eles não eram seus pais e em sua procura foi castigado mesmo sem ter culpa. A falta de amor que estava em sua origem, colocou-se contra ele.
É necessário sentir que diante de tudo e apesar de tudo, havia amor antes de nós. Isto é uma alegria perene, uma bagagem feliz.
O aparecimento de uma imprevista Primavera, prêmio amoroso universal, pode nos ajudar a receber e distribuir amor durante a nossa existência.
Creio-me abençoado e, em muitos momentos difíceis ou gratificantes, lembro-me disso, e tenho a certeza de que essa idéia ou lembrança me envolve cosmicamente. E imediatamente sinto uma confirmação, uma resposta.
Sim, sou herdeiro: havia amor antes de mim.
Há atitudes até mesmo profissionais de alguém – por exemplo – que se torna um Antiquário e busca no passado das coisas belas o amor que as criou. O que então se torna a resposta à pergunta que ele faz sobre a existência do amor antes dele.
Nota-se muitas vezes que a escolha de um ofício é uma herança amorosa ou a procura dela e muitas vezes podemos declarar essa herança em uma obra poética – ou reclamá-la.
O amor herdado é algo muito mais rubro e tépido do que o sangue. E também pode ser nosso testamento.
Eu procurei saber dele na escrivaninha de meu pai.
22 de Agosto de 2009
Quando se comemoraria o 109º Aniversário de meu falecido pai.
Cyro del Nero