Leituras

Daniel Taques Bittencourt

CASTELO RÁ-TIM-BUM – A exposição

 

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O MIS – Museu da Imagem e do Som – vive um ótimo momento de público e de repercussão midiática, com seguidas exposições que provocam filas pelos quarteirões do bairro.  Para nós, do Vestindo a Cena, a notícia se torna ainda melhor se considerarmos que, atrelada ao sucesso do MIS, está uma concepção de expografia que cada vez mais dá espaço ao público para que interaja e realize suas leituras e vivências a partir de cada objeto ou conteúdo exposto.

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Em 2014, o museu já realizou exibições sobre Stanley Kubrick e David Bowie. Os números de público são impressionantes: no ano de 2010 (diretoria antiga) o MIS recebeu, ao todo, menos de 50.000 visitas, enquanto que apenas no mês de março desse ano a exposição de Bowie superou essa marca. E junto ao público expressivo, vieram também as ótimas críticas em relação às montagens realizadas no espaço. Como mostramos em artigo publicado aqui no Vestindo a Cena, Christiane Kubrick, viúva do diretor, declarou sobre a exposição no MIS: “Cada país adiciona algo ao material. Aqui houve a ideia de copiar os cenários. Ninguém mais fez isso […] Ficou com certa cara de teatro. Achei muito impressionante.”

david bowie

Não há como negar que há um certo “padrão” clássico de exposições, que encontramos do MASP ao MoMA, do Tate Modern ao Louvre. Corredores e salas com paredes brancas, obras com uma distância padronizada, iluminação direta e plaquinhas informativas com dados técnicos. Mas museus do mundo inteiro estão inovando, buscando novas formas de interação com o público, e as últimas exposições do MIS têm este fato em comum: além da temática de sucessos audiovisuais do século XX, uma concepção em que a exposição em si seja também uma instalação artística. Se, no “modelo tradicional”, o museu busca transparência para que todo destaque se direcione à obra, nesse modelo o museu tenta se vestir do universo do artista para potencializar a experiência proposta junto ao público.

Julgando pela popularidade de outros museus que apostam em exposições diferenciadas, os frequentadores parecem gostar em especial das mostras Interativas. Em São Paulo, os maiores exemplos desse modelo são o Museu da Língua Portuguesa e o Museu do Futebol, que têm todo seu acervo exposto com elementos interativos. No entanto, vem de mais longe nossas raízes com a interação artística. No final da década de 1950, surgia no Brasil o movimento Neoconcretista, tendo como um dos preceitos a incorporação efetiva do observador às obras, através do toque e da manipulação. Dois representantes importantes desse ideal foram Lygia Clark e Helio Oiticica, reconhecidos em todo o mundo por suas obras interativas, como Os Bichos – esculturas de Clark que podem ser refeitas pelo visitante da exposição, ou os Parangolés – vestes feitas por Oiticica para receberem a interação lúdica com quem as veste. Desde então, o recurso da incorporação do observador à obra tem sido explorado de diversas maneiras no ambiente dos museus.

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Castelo Rá-Tim-Bum, a Exposição, se apropria da ideia de instalações artísticas e da interação, buscando imergir o visitante no universo do programa infantil realizado pela TV Cultura na década de 1990. A entrada da exposição já é um indicio da experiência que está por vir, pois é através da porta do castelo, com direito ao porteiro, que todos os visitantes começam seu passeio pelo universo mágico da série aclamada pelo público e crítica. Principalmente para as crianças e para os nostálgicos, se relacionar com o Castelo é um experiência marcante. A lotação máxima de 1.700 pessoas tem sido atingida todos os dias desde a abertura em 16 de julho.

10403770_10152116562430544_4663735323029486770_o-693x340A reprodução do saguão do Castelo traz a árvore da Celeste, o lustre das fadas Lana e Lara e o casa dos passarinhos músicos

A exposição tem cerca de 20 ambientes que englobam todos os personagens, quadros e cenários fixos da série. A partir das plantas originais, foram recriados vários ambientes: a Entrada do Castelo, a Biblioteca do Gato Pintado, o Laboratório do Tíbio e Perônio, a Oficina do Dr. Victor, a Sala de Música, a Sala da Lareira, a Cozinha, o Saguão com a árvore da cobra Celeste, o Quarto do Nino, o Quarto da Morgana, o Ninho dos Passarinhos Músicos, e o Interior do Lustre das fadas Lara e Lana. Os demais ambientes foram concebidos exclusivamente para a exposição e são: Hall com vídeo de boas vindas do Nino, um ambiente com referência aos Encanamentos do Castelo, uma sala com referência ao espaço sideral para o intergaláctico Etevaldo, um Jardim em homenagem à Caipora, uma sala com exibição de entrevistas atuais com a equipe da série e um ambiente cheio de lixo para o Dr. Abobrinha.

A biblioteca conta com a cadeira original utiliza nas filmagens. Ao fundo, o boneco do Gato Pintado.A biblioteca conta com a cadeira original utiliza nas filmagens, ao fundo está o boneco do Gato Pintado

Para além da nostalgia de estar no castelo mágico que marcou a infância de toda uma geração, a exposição dá um destaque merecido ao trabalho de arte feito pela equipe da série. Os ambientes em si são reproduções, mas diversos objetos originais estão expostos e mais que isso, desenhos e fotografias do processo de criação que levou até o resultado que conhecemos. Uma oportunidade que faz valer a visita, para conhecer um dos trabalhos de arte mais cuidadosos da história da TV brasileira.

O quarto do Nino - seu acesso é feito por uma porta giratória, assim como no programa de Tv.No quarto do Nino o acesso é feito por uma porta giratória assim como no programa de Tv

 A função de “Diretor de Arte” na equipe do Castelo Rá-Tim-Bum não existia e a criação visual foi encabeçada por alguns artistas como Antônio de Freitas, que fazia parte de um quarteto de cenógrafos, composto também por Marcelo Oka, Lu Grecco, e Alexandre Thallinger. Silvio Galvão, um mago da espuma, criou objetos como a árvore, esculturas, adereços, bonecos, a clássica maquete, além de efeitos. Carlos Alberto Gardin foi o figurinista responsável pelo visual completo dos personagens humanos. Além, claro, de toda uma concepção pensada com a direção e roteiristas dos programas e do trabalho de todas as equipes específicas, desde o pessoal de pinturas de efeito, até o de marcenaria. Foram ao todo 250 pessoas trabalhando na criação do Castelo Rá-Tim-Bum.

Todo o trabalho visual da série teve um nível muito apurado de detalhes. Elementos cenográficos muito utilizados para enriquecer a narrativa. Como as dezenas de passagens secretas, as traquitanas espalhadas pela casa, os ambientes sempre com alguma função lúdica e educativa. Na recriação dos espaços para a exposição muito desse detalhamento se perdeu. No entanto, algumas dessas “surpresas” do cenário se transformaram em elementos de interação com o público como, por exemplo, a passagem secreta do quarto do Nino, as gavetas da cozinha, a caixinha de música ou o microscópio do Tíbio e Perônio.

A cozinha do Castelo. Ao centro, o figurino do entregador de pizzas Bongô.A cozinha do Castelo, ao centro está o figurino do entregador de pizzas Bongô

É digna de atenção a maquete do castelo e a coerência estilística com os ambientes internos e objetos cênicos. A ideia inicial era de que o castelo em si fosse misterioso e ao mesmo tempo alegre, e que as crianças pudessem acreditar que este existisse no meio da cidade. Cao Hamburger conta que pensou, por exemplo, na Casa das Rosas e até em uma casa abandonada de seu bairro. A equipe de cenógrafos, com base nessa concepção, decidiu que a referência central para o estilo do castelo seria o arquiteto catalão Antoni Gaudí (1852-1926).

castelo e cidadeO Castelo Rá-Tim-Bum em meio à cidade

casa das rosasCasa das Rosas, na Avenida Paulista, em São Paulo

SONY DSCCasa abandonada no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo

Sagrada Familia-GaudíA igreja Sagrada Família, Do arquiteto Gaudí, em Barcelona – Espanha

A caracterização e figurinos de Carlos Alberto Gardin são uma das marcas da série. Um trabalho ao mesmo tempo cheio de referências, educativo, arrojado e esteticamente interessante. Gardin conta que houve muita pesquisa, busca por paletas de cor que ornassem com a personalidade de cada personagem e com a estética do castelo. A ideia é que tudo tivesse uma estética não realista. É como se os elementos tivessem algo de barroco, como disse o roteirista Flávio de Souza, porém sem buscar um efeito de imponência.

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Todas as roupas estão expostas e merecem um olhar atento. Os trajes dos moradores do Castelo são feitos em patchwork e em cada pedaço de tecido e estampa há uma pesquisa por referências. Na caracterização do personagem Nino, por exemplo, buscaram-se elementos de diferentes momentos históricos, já que o menino bruxo tem 300 anos de idade. O cabelo tem inspiração medieval, o colete remete ao século XVIII e a calça à década de 1970.

As caracterizações, além de complexas na concepção, demandavam tempo de produção. A barba dos gêmeos Tíbio e Perônio era feita com pelo real e precisava ser colada e retocada a cada gravação. Para o figurino da Caipora eram também vários pelos que precisavam ser presos ao corpo da atriz Patrícia Gaspar. Penélope, a única personagem monocromática, interpretada por Angela Dip, tinha cílios falsos e unhas postiças. Gardin conta que economizou na produção para conseguir fazer o vestido da bruxa Morgana o mais rico possível, cheio de cristais.

Os únicos figurinos propositalmente datados são os das crianças visitantes do Castelo: Biba, Pedro e Zeca. As roupas foram criadas com referência às vestimentas usadas da década de 1990. Mas apesar desses personagens não serem “mágicos”, também receberam um bom grau de estilização e de exagero, seguindo a linha do Castelo.

O figurino dos personagens Telekid, Biba, Pedro e Zequinha.O figurino dos personagens Telekid, Biba, Pedro e Zequinha

Originalmente todo o térreo do Castelo era montado em um único estúdio, formando um cenário 360º, sem a quarta parede. Já no MIS, foi preciso fazer um trabalho de adaptação ao espaço do museu, causando uma fragmentação dos ambientes. Levando em conta o tamanho da equipe e o tempo de montagem da exposição, relevamos alguns espaços mal aproveitados quando visitamos a abertura da exposição, exaltando a boa qualidade da mostra em geral. Até porque, o trabalho não para quando a mostra é aberta. Segundo reportagem da Revista da Folha de S. Paulo de 7 de setembro, diversas adaptações já tiveram que ser feitas nos ambientes, como a substituição de bonecos, a colocação de vitrines para proteger os figurinos… O público de hoje não visita só para olhar, mas quer vivenciar a experiência, tirar foto junto… Que maravilha que André Sturm, do MIS, visualiza a importância da relação com a audiência para se ter uma exposição viva, que valoriza o trabalho do artista! Ele diz que “deixaria de fazer uma exposição se proibissem de tirar foto”. Parabéns ao MIS também pelo convite a membros da equipe original do Castelo para a recriação e restauração de elementos do programa, desde a montagem da exposição.

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Como disse Cao Hamburger em entrevista: “a televisão tem uma dívida com seu público. Para quantidade de dinheiro que se gasta em produção televisiva, a porcentagem de programas de alta qualidade é muito pequena. E televisão é uma concessão pública (…)”. Mas além da dívida com o público, também há uma dívida com os artistas, sempre reféns de uma lógica de pouco tempo e pouca verba para a direção de arte. Falta para a área cenográfica, figurinos e adereços, contextos como o do Castelo Ra-Tim-Bum, de compromisso com a cultura acima do lucro. Quando esse contexto existe, surge espaço para verdadeiras obras de arte,

Falamos aqui de alguns dos muitos aspectos riquíssimos a serem aproveitados de Castelo Ra-Tim-Bum – A Exposição. Se você conseguir vencer a procura alucinada, reserve algumas horas para ir ao MIS na Av. Europa, 158. Até dia 12 de outubro de 2014. Terças a sextas das 10:00 às 21:00 Sábados das 09:00 às 23:00 Domingos e feriado das 09:00 às 20:00. R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia) e entrada franca para menores de 5 anos. Boa visita!

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