AUGUSTO BOAL VAI…

Uma pessoa generosa, sábia, que muito me ensinou no pouco contato que tivemos. Entrei em contato com Augusto Boal em 2000 para conversar sobre figurino teatral para a pesquisa do livro que começava a escrever. Conversamos como se amigos há muito tempo e a partir de então, trocávamos e-mails acompanhando os “fazeres” um do outro. Boal sempre foi muito atencioso, solícito…  Votei no seu nome e o indiquei para o Nobel da Paz, acompanhei seus discursos e atitudes sobre o Teatro Fórum, Teatro do Oprimido etc etc etc. Sua conquista da aposentadoria, sua luta contra a doença…

Sempre dinâmico, ativo, participativo. Não preciso falar mais para demonstrar a falta que Boal fará entre nós e para o teatro brasileiro. Leia abaixo a mensagem de Augusto Boal para o Dia Mundial do Teatro, em 27 de março de 2009:

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Mensagem de Augusto Boal para o Dia Mundial do Teatro, 27 Março de 2009

Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver. Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro! Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro. Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana. Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa – nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias. Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: – “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”. Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento – é forma de vida! Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

Boal, continue fazendo seu teatro sempre!! Una-se aos nossos que já foram e aos cidadãos comuns dos céus e continue seu trabalho de transformar também por aí! Vá em paz! Viva na continuidade, pois no nosso pensamento continuará mais vivo do que nunca. Obrigada!

 

Augusto Boal

“O teatro tem, através da imagem, a função de revelar a realidade. Por exemplo, existem animais que não são capazes de brincar, como o galo e a galinha, que não brincam nunca. O morcego fica pendurado e você pensa que ele está brincando, mas está dormindo, não sabe brincar. Tem outros animais como o gato, cachorro, cabritinho, especialmente os jovens, que brincam. Mas nenhum animal é capaz de brincar fazendo de conta. O ser humano é o único que faz de conta. Quer dizer, eu faço de conta que sou feliz, ladrão, médico, doente… Nenhum gato faz de conta que é cachorro. Gato é gato. O ser humano faz de conta e, ao fazer de conta, cria uma nova realidade. A maravilha do teatro é criar essa nova realidade. E essa imagem do real é real enquanto imagem. Você faz de conta uma coisa, mas esse fazer de conta é real. Esta é a função geral do teatro: fazendo de conta, você cria uma realidade nova e nessa realidade você analisa a realidade na qual vive e ensaia a forma de transformação. Isso tem a ver com figurino, tem a ver com cenário, tem a ver com tudo que é relacionado aos meios sensoriais de comunicação que, no teatro, são o olho e o ouvido”. (Boal em entrevista para Rosane Muniz, em 2001 para o livro Vestindo os nus – o figurino em cena)

Leia matéria sobre Augusto Boal no site de O Globo.

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