DE VOLTA À UNIÃO DA ILHA
Morei na Ilha do Governador dos 8 aos 19 anos, quando mudei para São Paulo. Os ensaios da escola e os sambas mais famosos da União marcam minhas lembranças. Sinto que “eu serei o dono dessa festa” (É Hoje, 1982) e que o “realejo diz que eu serei feliz” (O Amanhã, 1978). Afinal, “o Domingo é de alegria” (Domingo, 1977) e “como não tenho luxo nem riqueza, há simplicidade e beleza na festa do meu coração” (Bom, Bonito e Barato, 1980). E quer saber? “O rei mandou cair dentro da folia! Eh! Lá vou eu!” (Festa Profana, 1989)!!!
É claro que, como uma boa carioca, já tinha desfilado antes: duas vezes na Imperatriz Leopoldinense e uma na União da Ilha. Mas sempre como destaque, honrando o passado de Miss e cantora. Mas desta vez…
Chegar ao barracão no sábado passado para provar a fantasia foi uma emoção. Havia vestido o “traje” da jornalista / pesquisadora que uso nos últimos dez anos, me concentrando para investigar e descobrir detalhes sobre a vivência das tias do samba e havia me esquecido da história que vivi nesta escola.
Mas “minha personagem” foi logo desmontada. Na entrada da Cidade do Samba, na Gamboa (onde está localizada a Pedra do Sal, considerada a pedra fundamental da construção do samba carioca), encontrei Maria Ângela, que me ajudou a chegar ao galpão da União da Ilha. “Você também vai sair de baiana? Vem comigo! Estou muito emocionada, pois saio de baiana há vários anos na Grande Rio e meu sonho era sair na União. E agora fui convidada.” Pronto, tinha achado minha “tutora” e ali começou a emoção.
Curiosidade: O nome barracão é atribuído ao Candomblé, influência da religião afro-brasileira no Carnaval. Os praticantes da religião chamam o local de preparo dos rituais por esse mesmo nome. (Fonte: Revista da União da Ilha)
Assim que chegamos ao quarto andar (e dá-lhe escada!), avistam-se as baianas experimentando e organizando suas saias. Os homens no ambiente são fundamentais, pois o esforço em colocar o conduite dentro das anáguas é bastante trabalhoso e exige força. Surpresa: encontro um amigo de infância do meu irmão, Rodrigo, e ele me ajuda com minha saia. E com a de todas as outras baianas, é claro!
As fantasias são separadas por tamanhos P, M, G e GG. Mas como é melhor ficar maior do que menor, as altas como eu economizam trabalho! Ficou perfeito! Em compensação, quem não sabe costurar, vai no improviso. Não há costureiras para todas, então… às vezes a costura do arremate fica torta, mas o que importa é o resultado final. E ficou bom na altura, já que a parte de dentro não aparecerá!
A ansiedade é geral e começam todas a vestir suas saias e a perguntar: “Tá bom, Sema (a vice-presidente da ala)?”
Mas todo mundo põe a mão na massa e ajuda. Cada uma cuida da sua fantasia; quem precisa vai pra máquina; quem não sabe, recebe ajuda. Até o marido teve que entrar na dança. Passei a tarde suando com os conduites e conversando com as baianas.
O emocionante é perceber o espírito de companheirismo e ajuda. Mesmo quem não desfila mais na escola, continua no apoio. É o caso da Tia Bené, 79 anos, que é “internacional” e já foi até pra França desfilar com a União da Ilha! Maria de Lourdes (indo à máquina de costura) desfila há 15 anos e diz que já saiu na ala da comunidade, mas ser baiana não se compara a nada! “Tem a força da tradição!”
Filmei minha “tutora” testando seu adereço e rodando durante a prova de roupas. Um luxo! Pena que ainda não consegui colocar aqui porque a qualidade ficou muito alta. Mas estou devendo os videos, ok? Hoje na Sapucaí farei outros.
Eu queria experimentar o traje completo, mas a Sema não permitiu. Não sei se é pra não estragar a surpresa ou se ficou com medo de eu me assustar com o peso e desistir da aventura! rs… Só saberei hoje a noite!!!
Fantasias e adereços sendo organizados
No ensaio de rua, muita roda e torcida organizada
As tias ficam no apoio e tomando conta da porta da cozinha, que não são bobas nem nada. De blusa e sapatos vermelhos está Tia Noêmia, presidente da ala. À direita da foto, a internacional baiana Tia Bené.
Tia Noêmia, 75 anos, era casada com Orphilo Bastos, fundador número dois da escola e primeiro diretor de bateria. Como sua família inteira fazia parte da tricolor da Ilha, ela estava sempre ali por perto. Na torcida pelo time União Futebol Clube, conheceu o “jogador” Orphilo, que viria a ser seu namorado e com quem se casaria mais tarde. O time decidiu transformar-se em escola de samba, depois de uma reunião, em 07 de março de 1953. E lá estava Noêmia participando. Ela foi a primeira baiana da União da Ilha e hoje coordena (com a ajuda da Sema) 120 baianas neste ano de retorno ao Grupo Especial.
E eu estarei lá pra contar pra vocês!
Saiba mais sobre o enredo da escola (Dom Quixote de La Mancha: O Cavaleiro dos Sonhos Impossíveis) e o que Rosa Magalhães preparou pra poder curtir melhor o desfile que acontece a noite. A União é a primeira escola a abrir a avenida em 2010!
Enviado por Rosane Muniz










