Pequisa estética da Cia. Nova de Teatro (SP)

faustus1.jpg Como não poderemos conferir o espetáculo antes da segunda quinzena de abril, resolvemos publicar uma crítica escrita pelo ator e diretor Francisco Taunay para o site Opinião e Notícia, em 13 de março de 2009, e registrar a dica para o espetáculo que mostra uma criação técnica merecedora de considerações e reflexões. Por favor, quem assistir, deixe aqui seu comentário.

Doutor Faustus Liga a Luz, direção de Lenerson Polonini
Tudo é surpreendente nesta mistura de teatro, balé e ópera que inaugura o novo Teatro Anexo da Oficina Cultural Oswald de Andrade, na cidade de São Paulo. O impacto da encenação acontece já no primeiro instante, onde vemos a mão de uma bailarina iluminada por leds e seu figurino com um fio de luz fluorecente, que dá um tom exótico ao espetáculo. A partir daí, com o aparecimento do Doutor Faustus (o hábil ator Marçal Costa, que parece um grande Nosferatu, se adaptando perfeitamente ao tom expressionista da peça), o público encontra um universo muito bem construído, com autômatos, seres meio humanos, meio robôs, representados pelos personagens do Garoto e do Cachorro, personagens trágicos, como a vizinha/cantora ou a bailarina que prefigura uma espécie de coro, e o grotesco, exemplificado pela pequena figura que aparece

em cena. Somente a presença de Margarida Ida e Helena Anabela (o mesmo personagem, uma espécie de duplo), humaniza a cena com a interpretação de Carina Casuscelli.O vídeo aparece ora como cenário, com imagens das conquistas científicas, guerras, o homem na lua, grandes sábios e imagens abstratas, ora como personagem, na figura de Mephisto: o ator Paulo César Pereio, filmado em closes que se alteram com a distorção e a composição de imagens, com sua voz e interpretação que marcam a cena, num encontro perfeito entre ator e personagem. Posso dizer que nunca vi num espetáculo um uso tão bom do vídeo (algo que geralmente aparece no teatro como um elemento mal utilizado), certamente realçado pelo branco dos figurinos. A música eletrônica de Wilson Sukorski dá um tom contemporâneo ao ambiente, mas não só isso; ela também se faz presente de forma poderosa, no canto dos atores, do lírico ao rap, apropriada a esta espécie de ópera. O mito do Fausto, do homem que vende a alma ao diabo em troca de conhecimento, permeia a literatura ocidental ao longo de cinco séculos, sendo que suas versões mais conhecidas são as peças do dramaturgo inglês contemporâneo de Shakespeare, Christopher Marlowe (1563-1593) e do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, considerada por muitos como a obra máxima do romantismo alemão. Spengler escreve sobre as sociedades fáusticas, que buscam dominar a energia, e cujo mito é o motum perpetuum. Nesta versão de Gertrude Stein, criada originalmente como um libreto de ópera pela escritora americana da vanguarda do século vinte, o Doutor Faustus negocia sua alma com o diabo pela invenção da luz elétrica: “Eu sabia que lá podia ter luz não luz do luar luz estelar luz do dia e luz de vela, eu sabia eu sabia eu via a luz reluzente, eu via de repente ela, eu a via na minha frente, eu a via brilhar, eu disse eu eu eu devia ter essa luz(…).” Sim, o texto é um fluxo, com poucas pontuações, onde a ação dos atores se mistura com as falas e o canto dos personagens, um desafio à racionalidade, uma espécie de aplicação da teoria da relatividade, em voga na época, no campo da literatura e das artes. Penso que como espectador presenciei um momento único, o encontro de uma pesquisa estética que dura já quase dez anos, empreendida por Lenerson Polonini à frente da Cia. Nova de Teatro, com montagens de Beckett, Joyce, Heiner Muller, amparadas pela teatralidade de Meyerhold e os atores marionetes de Gordon Craig, com um texto que está em perfeita sintonia com esta estética. O espetáculo ainda precisa amadurecer, principalmente na conquista do rigor necessário às mudanças de uma cena para a outra e na sua parte final, mas é barbada entre as estréias de 2009.

Serviço:  Doutor Faustus Liga a Luz, com a Cia. Nova de Teatro Texto: Gertrude Stein
Direção: Lenerson Polonini
De 09 de Março a 28 de abril Segundas e Terças-feiras às 20 h Teatro Anexo da Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363- Bom Retiro, São Paulo-SP Próximo ao Metrô Tiradentes/
Lotação: 50 lugares
Tels: 3221.5558/ 3222.2662/ Reservas: 7225.3466

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