O Théâtre du Soleil na passarela do samba
Post enviado por Marizilda Carvalho, professora do Senac especializada na área de administração hoteleira e eventos, pesquisadora da indumentária e cenografia do carnaval.
Depois de assistir ao ensaio do grupo anteontem, me aventuro a analisar e comparar a cenografia do Théâtre du Soleil com a cenografia das escolas de samba brasileiras e seus carros alegóricos e enredos.
O espetáculo que o grupo, dirigido por Ariane Mnouchkine, apresenta é o Les Éphémères (Os Efêmeros), que estreou no final de 2006 em Paris e segue em turnê mundial. Na apresentação, dividida em duas partes (cada uma delas com um breve intervalo), são retratadas cenas cotidianas da vida, além de dramas e aspirações de pessoas comuns.
O espaço de representação da trupe me remeteu ao da passarela do samba, chamada de Sambódromo, onde o público interage com os atores ou com os sambistas, posicionados como nas arquibancadas, em ambos os lados do teatro.
As comparações vão mais além: como quando o cenário teatral de Les Éphémères entra por um dos lados do espaço teatral e vai, ao longo da apresentação, colaborando com a interpretação dos atores no espaço cênico - como acontece com os carros alegóricos que deslizam pela avenida, contribuindo com a representação plástica do enredo que será contado durante sua trajetória no sambódromo.
Os próprios atores empurram pequenos tablados com rodas, palcos móveis giratórios, que trazem sobre eles a cenografia e os atores, onde o espectador pode observar os mínimos detalhes, que, aliás, são inúmeros, dos objetos de cena ao sentimento dos atores.
No carnaval, os carros alegóricos são empurrados ao longo da passarela por componentes da comunidade chamados de Marmiteiros, que participam não como atores de cena, mas como técnicos na evolução da escola.
No desenvolvimento da montagem do enredo de uma escola de samba, a história é dividida em alas. Assim, o carnavalesco poderá usar quantas alas sentir necessárias, para ter uma boa compreensão do enredo e para que o público entenda melhor e interaja com o desenrolar do tema proposto.
Já no teatro esta divisão é chamada de atos, que, em Les Éphémères, aparecem em suas várias histórias, que se entrelaçam ou não, contadas num único fôlego ou mesmo fragmentadas.
Vamos aguardar para ver se em um próximo carnaval o tema-enredo de uma escola brasileira não prestará uma homenagem aos atores e à direção do grupo Théâtre du Soleil.


October 13th, 2007 at 4:14 p10
Querida Marizilda, o espetáculo do Soleil desperta milhões de sensações e sentimentos que devem ser expressados. Obrigada por escrever aqui para o blog. Vamos ver se os outros colegas se inspiram e também escrevem algumas poucas linhas por aqui.
Beatriz Luz Dupin, como boa mineira, reparou a recorrência das cenas em torno das mesas de jantar e com comida que nos envolve o tempo todo. Professor Fausto Viana já enxergou as entradas e saídas dos carros cenográficos como uma linguagem cinematográfica, como se fossemos câmeras que observam aquelas cenas por 360 graus.
Eu fiquei impressionada com a riqueza de detalhes. A princípio aparentemente até realista demais, mas ao longo da encenação, vamos comprovando como cada elemento cênico colabora com as comoventes histórias que nos são contadas por poucas palavras. Amanhã assistirei a versão integral e postarei aqui enquanto viajo para o encontro OISTAT em Curitiba na segunda.