Figurinos com materiais reutilizáveis
Ontem dei uma palestra sobre Design e Sustentabilidade na III Semana Têxtil e Moda da USP Leste. O evento está bem interessante e é aberto ao público. É necessário fazer a inscrição no site antes.
Falei sobre o trabalho que realizei ano passado com Ana Beatriz Simon Factum, Ana Paula Coelho, Beatriz Luz Dupin, Isabel Xavier, Janete Menezes Rodrigues, Marizilda Carvalho e Valéria Berti Contessa na disciplina “As Fronteiras entre Design e Cenografia: Explorando Temas do Design Contemporâneo”, no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, ECA – USP, ministrada pela Profª Drª Maria Cecília Loschiavo dos Santos (Programa Interunidade em Estética e História da Arte/FAU/PROCAM - Universidade de São Paulo) e pelo Prof. Dr. Fausto Viana (Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas/ CAC/ Prática Teatral/ ECA USP).
O projeto “Oito mulheres no travesseiro de Kantan” foi concebido a partir da metodologia de desenvolvimento de produtos em conformidade com necessidades sociais e ambientais dentro da abordagem da sustentabilidade, no qual alunas da pós-graduação da ECA e da FAU criaram cenário e figurinos para o espetáculo de Teatro Nô Kantan (1948), de Yukio Mishima (1925-1970), cujo tema principal foi definido como sendo a valorização da essência da vida.
Nos figurinos, este ponto foi retratado por meio de forma, cor, textura e volume de cada material, adequadamente ao modo como cada uma das personagens se mostra diante da vida: Jiro (shite) - crítico do materialismo, é um “espírito” que compreende a efemeridade da existência terrena; Kiku - a imagem da mãe/terra e tradição; Beleza - retrato da soberba, americanizada, banal e menosprezada por Jiro; e Doutor (waki) - mensageiro, símbolo da ira por não conseguir cumprir suas “obrigações sagradas”.
Com o desafio de trabalhar basicamente com o descarte de materiais que podem ser reutilizados, nós redefinimos nossos limites de criatividade através do uso inusitado de materiais não-usuais, dando uma resposta intuitiva ao design de figurino e espaço cenográfico por meio da agregação de valor estético a materiais destinados ao descarte.
O trabalho foi muito bem aceito e os figurinos continuam em exposição até o fim do evento, que vai até amanhã. Veja a programação no site. Acima, dois dos figurinos realizados:
Kiku: Seu traje é inspirado no quimono japonês, já que esta personagem representa a tradição, a terra-mãe que afaga e é responsável por trazer à cena o instrumento (o travesseiro mágico) que possibilita a viagem de Jiro ao mundo dos sonhos. As cores escolhidas foram o marrom café com laranja, em representação ao elemento Terra. O quimono construiu-se a partir de refugo de algodão cru tingido de café, com arte aplicada composta de dobraduras de filtros de café usados e detalhes de crochet nos punhos e decote com fios desfiados de sacos de juta. Sua peruca foi criada com uma base de casquete pintada com tinta acrílica para tecidos na cor cerâmica e fios de garrafa PET laranja, produzidos a partir do processo de filetamento e presos com a técnica de esticamento do fio e transformação em cachos.
Apesar de ser uma roupa simples, a variação na complexidade da construção de um quimono é enorme. E mesmo após longa pesquisa, a opção foi por um formato “básico”, com as mangas alongadas não pela costura, mas pela própria aplicação do bordado de filtros dobrados.
Beleza: A cor vermelho vivo representa a juventude no teatro Nô e o branco representa o feminino. Estas foram as cores escolhidas para representar esta personagem. Um vestido evasê de refugo de voil branco e uma capa longa realizada a partir da junção de sacos de cebola de ráfia vermelha, bordada com refugos de tule, lã e meia-calça desfiada. Na cabeça, ela utiliza um arranjo de fios de silicone com aplicações de pétalas de PET transparente lixado, inspirada em cabeça do Nô clássico.

